Entrevista a María Mercedes Salgado, da Nicarágua.
Por Alejandro Guerreiro

María Mercedes Salgado foi servidora pública sandinista, e ocupou um cargo diplomático em Brasília entre 1982 e 1986. Agora diz que “o governo de Daniel Ortega não tem atualmente nada que ver com o dos começos da revolução” (1979).

“Aquela revolução —acrescenta— pretendia uma mudança estrutural no país, mas agora Ortega concentrou todos os poderes do Estado e se submeteu aos desígnios do FMI, aplica toda sua política em acordo com as câmeras empresariais e alguns sindicatos que lhe são afins. Enquanto, dá-lhe pau nos opositores”.

—  No entanto, desde o primeiro momento Ortega governou em acordo com Violeta Chamorro, proprietária do diário “A Imprensa” e representante de um setor da burguesía nicaragüense.

— Sim, mas depois, durante seu governo, Chamorro privatizou as empresas que tinham sido estatizadas. Antes, as propriedades do ditador Anastasio Somoza eram tão grandes que a somente a estatização de suas propriedades foi um passo enorme. Além disso declarou-se a “piñata”: a partilha de terras de proprietários que tinham fugido do país. Foi a “lei de ausência”. Também se estatizaron bancos. Depois veio a guerra a partir de 1982.

— Fidel Castro disse que Nicarágua não tinha que ser “uma segunda Cuba”.

— Assim é, disse isso. É que se tratava de um momento de enorme pressão internacional, inclusive interna com levantamentos camponeses e indígenas na contramão da revolução, e bases de ataque contra nosso país desde Honduras. Há matizes sempre: aquela foi uma revolução popular, a classe operária nicaragüense é muito pequena.

— Por que se produzem agora os grandes levantamentos contra o governo?

— Porque há uma insatisfação popular contra o governo de Ortega. A economia, que nos primeiros tempos chegou a crescer  4,5 por cento anual, não se distribuiu. A ajuda venezuelana, que foi em seu momento de 4.000 milhões de dólares, não ingressou oficialmente ao Estado e resultou manipulada discricionariamente. Agora, a população urbana e o movimento camponês se uniram em uma Comissão em Defesa da Terra, do Lago e a Soberania, e constituiram uma frente contra Ortega,

— Quem compõem esse frente politicamente?

—É uma frente democrática composta pelo movimento de mulheres, de direitos humanos, estudantes e empresários que em seu momento estiveram com Ortega e agora estão girando para a oposição. Por sua vez, nessa frente democrática se desenvolve uma luta interna com os setores que se aglutinaram para impulsionar um movimento para a esquerda. Por isso nos foi tão útil esta Conferência em Buenos Aires, para tomar contato com companheiros de outros países e fazer conhecer tudo isto.

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