Rafael Santos, no fechamento da Conferência Latinoamericana (extratos de sua intervenção)

“Frente de trabalhadores para derrotar ao fascismo e aos ajustadores”

Companheiros, esta Conferência é um passo importante e até histórico na construção de nosso partido, por um lado, e na relação com as correntes revolucionárias na América Latina.

Os presentes

Temos a presença da importante delegação do Brasil, os companheiros da LPS (Luta Pelo Socialismo) e de Tribuna Classista, junto a vários intelectuais, professores e lutadores que são dirigentes sociais e políticos em seu país. Também a presença do companheiro Emigdio, de Paraguai, que é um grande cientista, médico, reconhecido participante nas lutas sociais, e o apoio de uma organização camponesa que nos enviou sua adesão. Nem dizer dos companheiros do Partido dos Trabalhadores, que é um pólo político crescente na realidade uruguaia.

Também existem companheiros que não puderam comparecer por dificuldades econômicas. Do Peru, os companheiros do grupo Vilcapaza enviaram um documento sobre a realidade peruana e pedem-nos que viajemos para discutir as conclusões da Conferência. Também temos documentos enviados pelos companheiros do Chile, e adesões dos companheiros da Bolívia.

Dou especial importância à adesão dos companheiros professores, um grupo que rompeu com o POR da Bolívia e se propõem viajar a Buenos Aires, para poder debater.

A companheira Maria, aqui presente, é uma figura histórica da luta na Nicarágua e da revolução sandinista e hoje é oposição. A juventude, a qual está unida, luta firmemente, ainda que deve avançar no entendimento do período que atravessa Nicarágua. A respeito da chamada intervenção humanitária da OEA nesse país, comentei-lhe que este problema também o tivemos aqui, em ’78′, quando a Comissão de Direitos Humanos da OEA veio à Argentina e, em plena ditadura, se formou uma fila de três quadras de gente que saiu a levar a denúncia sobre seus parentes ou amigos desaparecidos, e se elaborou o primeiro relatório completo que foi uma arma política. Uma coisa é utilizar todos os instrumentos e outra coisa é lhes dar apoio político. A companheira está preocupada pelo grave tema das migrações América Latina, o mesmo que as companheiras salvadorenhas que estiveram aqui.

Há outras organizações, do México, que esperam tomar contato. Há dois anos e meio fizemos uma Conferência em Montevideo, foi-lhes útil aos companheiros na luta política desenvolvida ali e reagrupamos forças. Essa Conferência preanunciou a crise que estava em pleno desenvolvimento do nacionalismo burguês e do centroesquerdismo. As ilusões sobre o chavismo ainda estavam à flor de pele, e mantivemos debates públicos com dirigentes do sindicalismo e do Partido Comunista Uruguaio. Publicamos um documento que serviu de orientação. Inclusive esta ruptura do POR, baseia-se em parte naquele documento, que o levamos a um debate na Bolívia e foi uma referência.

Bolsonaro

Esta Conferência dá-se com o prognóstico já confirmado. Se desmoronou o nacionalismo burguês, temos a Ortega reprimindo às massas trabalhadoras e à juventude na Nicarágua, o fenômeno de Maduro, virando as costas à classe operária e com planos de privatização. E a realidade de que isso está sendo substituído em parte por uma ascensão de Macri na Argentina, de Piñera no Chile e a ascensão de Bolsonaro. O debate que se fez hoje deve ter impressionado a muitos companheiros. Esclarecemos um problema onde há uma confusão extraordinária. Dedicamos três dias a discutir a caracterização de que tipo de regime político é o de Bolsonaro e daí temos que enfrentar, com um método marxista. Porque não só se trata de dizer que Bolsonaro é um fascista. Uma caracterização correta é a que permite enfrentar, em forma científica, consciente, não aventureira, mas também não conservadora, o desafio que vai significar a ascensão deste regime, que tem um elemento fascista, e que vai tentar métodos repressivos extremos, de guerra, contra o proletariado e as massas oprimidas do Brasil. Essa é a experiência que tivemos na Argentina quando estourou o golpe de 1976. A partir de uma caracterização correta do golpe, fomos uma das organizações que mais militância teve durante a ditadura; a caracterização permite levar adiante um plano de trabalho e desenvolvê-lo.

O documento aprovado prognostica que marchamos a uma polarização política, não fatalista, mas sim contraditória. Um pólo está relativamente claro, é o de Bolsonaro, da direita, que tenta ser copiado por outros na América Latina; o outro pólo propõe-nos uma atividade militante, que não vai se desenvolver mecanicamsente; vamos intervir no processo para criar esse pólo político revolucionário. Porque, companheiros, neste momento, temos uma luta política frontal com todas as correntes populistas. Os meios de imprensa apresentam-no a eles como a esquerda do continente, e não o são. Eles começaram com as políticas de ajuste e repressão. Cristina Kirchner foi membro do G20. Portanto, a batalha política contra a frente democrática no Brasil, contra a “frente antimacrista” na Argentina, para superar à Frente Ampla do Uruguai, que se pretendem apresentar como muralha contra o avanço da direita, é, nesta etapa, fundamental. Em oposição a esta política que conduz a um beco sem saída, chamamos a impulsionar uma frente única dos trabalhadores a nível continental, para derrotar ao fascismo e aos governos responsáveis pelo ajuste e o entreguismo.

A debater

A publicação destes documentos tem que abrir uma etapa de debate político. Há um campo de trabalho impressionante. Portanto, companheiros, hoje nós quisemos terminar de nos conhecer, sacar uma proposta, fixar uma série de campanhas políticas a desenvolver. Em 30 de novembro vai ter uma marcha gigantesca em Buenos Aires, contra o G20, mas que a Conferência votou que se estenda a todos os países. Também se propôs o tema da mulher, vamos no dia 25/11 a uma marcha que é continental, na qual queremos intervir com um programa, e especialmente contra o desemprego internacional que queremos promover o 8 de março do próximo ano . Na Comissão contra a reforma trabalhista discutiu-se também que se levem adiante os planos de reformas previdenciária e trabalhista, vamos fazer mobilizações conjuntas, pelo menos no Uruguai, Argentina e Brasil. Também se propôs trabalhar por uma reunião latinoamericana de educadores, já que todos temos influência em seus sindicatos.

Esta Conferência não é um fato isolado, no ano que vem vamos tratar de realizar uma no Brasil, convocando a novos setores e organizações.

O Partido Obrero está imerso na luta por reconstruir a Internacional. Nós somos lutadores da IV, porque essa é a necessidade proposta hoje em dia para os trabalhadores do mundo frente à crise do regime capitalista.

Companheiros, acho que o objetivo foi alcançado. Estou contentíssimo de ter conhecido uma quantidade de companheiros tão valiosos, tão lutadores, tão inteligentes. Viva a Internacional! Viva a Conferência Latinoamericana!

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