Emigdio Idoyaga, de Assunção
Por Alejandro Guerreiro

“Aqui se disse que a América latina é um vulcão. Paraguai não foge a isso. Além disso, nosso país requer uma reparação histórica, pois foi teatro de duas guerras: uma no século XIX (a guerra do Pacífico) e outra no século XX (contra a Bolívia, pela exploração petroleira). Essa reparação chegará na mão da classe operária e do campesinato pobre”.

Emigdio Idoyaga é médico oncólogo, cirurgião, ex diretor do Hospital do Câncer de Assunção, no Paraguai. Está intervindo em várias lutas por demandas salariais e pela organização sindical.

“No Paraguai — acrescenta — não temos sindicatos nem paritárias. Tudo isso está sendo destruído pela ditadura feroz de Alfredo Stroessner e nunca pôde recompor-se. Por isso, as discussões são diretas, mediante assembleias”.

— Agora chegam notícias de uma greve geral em Paraguai.

—Sim, é uma greve docente que se transformou em greve geral. Isto deveria se combinar com a luta camponesa.

“A ditadura de Stroessner — prossegue Idoyaga— foi um produto direto, é certo que negativo, da Revolução Cubana e sua posterior consolidação. Os acontecimentos cubanos causaram um impacto muito forte no campesinato paraguaio, por isso, os militares deram preventivamente aquele golpe que foi um exemplo para as ditaduras latinoamericanas que sobrevieram depois. Ao mesmo tempo, a queda das ditaduras na Argentina e no Brasil foram decisivas para que também Stroessner caísse”.

— Depois da restauração do regime institucional, o Paraguai tem sofrido outros golpes.

— Sim, ainda que disfarçados de parlamentares, foram golpes de estado. Por exemplo, o que derrocou ao presidente Fernando Lugo após a luta dos “carperos”.

— Como foi isso?

—Centenas de famílias camponesas instalaram-se com carpas ao redor das plantações de soja do “brasiguaio” Tranquilo Favero, lhes sitiando. A repressão foi feroz e derivou num massacre, com onze camponeses e sete polícias mortos. Aquilo derivou no julgamento político a Lugo e seu derrocamento parlamentar. Depois chegou o governo de Horacio Cartes. Com ele aumentaram as plantações de soja e a o deslocamento de camponeses, quase foi eliminado o cultivo familiar. Por isso se produziu uma imigração em massa às cidades de camponeses despejados de sua terra. Cartes chegou ao cúmulo de dizer aos investidores estrangeiros “venham e abusem”. Isso prossegue agora, sob a presidência de Mario Benítez, ainda que se tenha gerado uma luta de gangsters dentro do oficialista Partido Colorado: vários deputados e senadores que aderiram ao ex presidente Cartes estão na prisão.

— Essa luta interna no Partido Colorado está tendo consequências no movimento camponês?

—Segue a luta contra os investidores “brasiguaios” e também contra os latifundiários argentinos que se dirigem ao Paraguai pelos menores impostos que se cobram lá. Esses produtores estão organizando bandas armadas contra os indígenas, e isso se sente especialmente na região de Tacuara’i, onde se organizou um importante movimento indígena em defesa da Patagonia, da Amazonia e dos Andes. Também se produziram confrontos em Canindeyú, no oriente do país. É um forte movimento contra os despejos de camponeses, que precisa confluir com a grande luta docente. É um confronto muito duro contra as bandas sojeiras armadas pelos grandes produtores.

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