Como lutar contra a direita no Brasil e na Argentina

Gabriel Solano

O triunfo de Jair Bolsonaro impacta a situação política da América Latina, colocando em questão todos os equilíbrios econômicos e políticos estabelecidos até o momento. É o que se sucede também na Argentina, que tem o Brasil como seu principal sócio comercial e seu quase exclusivo mercado para as exportações industriais. As declarações de Bolsonaro e de seu futuro ministro da Economia, Paulo Guedes, contra o Mercosul abrem uma questão sobre a continuidade dos acordos comerciais estabelecidos, o que afetaria severamente ao aparato industrial estabelecido na Argentina, em especial os setores vinculados com a indústria automobilística. Trata-se de milhões de postos de trabalho. Para os trabalhadores, o programa anti-operário esgrimido na campanha por Bolsonaro e sua camarilha militar representa um perigo que ultrapassa as fronteiras brasileiras. Se o novo presidente do Brasil consegue impor uma nova reforma trabalhista, que substitua definitivamente as convenções coletivas pela contratação individual, a pressão na Argentina sobre a classe operária irá se reforçar. Os capitalistas tentarão valer da concorrência entre os trabalhadores para obrigá-los a ceder seus direitos em ambos os lados da fronteira. Também ocorrerá com a reforma previdenciária, a primeira grande batalha que terá que atravessar Bolsonaro para converter-se em um governo forte. O resultado desta disputa estratégica entre o governo e os capitalistas, de um lado, e os trabalhadores, do outro, condicionará o que irá ocorrer na Argentina, onde o novo acordo assinado com o FMI propõe avançar em uma nova reforma previdenciária, que eleve a idade para se aposentar e reduza ainda mais os direitos. Para todas as classes sociais e forças políticas se propõe a necessidade de assimilar as mudanças e recalcular as estratégias. Em particular, para a classe operária e as massas exploradas abre-se o debate de como enfrentar o fortalecimento da direita militarista que ameaça as conquistas históricas dos trabalhadores.

O triunfo de Bolsonaro tem como contrapartida a derrota do PT, a princípio o principal partido do “progressismo” da América Latina. A derrota está longe de se reduzir a um episódio eleitoral, como prova o fato de sua incapacidade para enfrentar, primeiro, o golpe contra Dilma Rousseff, e depois a prisão e proscrição de Lula, seu líder histórico. De maneira mais geral, a derrota vergonhosa do PT está associada a um retrocesso geral dos nacionais e populares na América Latina. No Equador, o presidente apoiado por Rafael Correia, uma espécie de Daniel Scioli equatoriano, transformou-se em tempo recorde em um agente do imperialismo e ganhou uma consulta popular do ex-presidente, fechando-lhe a possibilidade de uma nova candidatura. Na Nicarágua, Daniel Ortega se esforça para aplicar o plano econômico ditado pelo FMI, desencadeando uma repressão inusitada com dezenas de assassinatos. A Venezuela, enquanto, transformou-se no principal eixo de campanha da direita no continente, mostra até onde  pode chegar a decomposição econômica e política do chavismo. (NTr – o presidente venezuelano saudou a eleição de Bolsonaro, reconhecendo um governo ilegítimo, pra não dizer, fraudulento do ponto de vista dos interesses vitais das amplas massas trabalhadoras)

Apesar desta tendência à dissolução, na Argentina, o kirchnerismo quer se valer do triunfo de Bolsonaro para chantagear aos trabalhadores, propondo que a única garantia para colocar para fora os Macri e os Bolsonaro é a unidade de todo o peronismo para 2019.

O triunfo de Bolsonaro e a sobrevida do governo de Macri, que apesar de sua crise de fundo está conseguindo avançar em uma ofensiva contra os trabalhadores, responde a um fenômeno político comum: a cumplicidade dos “nacionais e populares” de todas as cores com esta política ajustadora. Esta cumplicidade traduz, por sua vez, a dependência dos lulistas, kirchneristas e peronistas com o capital, seu regime e seu estado. A corrupção que envolveu aos governos destas formações políticas teve esse conteúdo social definido, pois foi um instrumento para desenvolver uma “acumulação primitiva” das burguesias nacionais às custas do Orçamento estatal.

A diferença do ocorrido no Brasil, é que a esquerda que se reclama socialista não jogou nenhum papel no processo político, ficando relegada na marginalidade; na Argentina, a Frente de Esquerda conseguido emergir como uma referência política inevitável. Enquanto no Brasil, esta esquerda adaptou-se ao lulismo e ao PT, chegando no caso do PSOL a assinar um acordo político com o kirchnerismo desse país; na Argentina, a FIT teve seu batismo de fogo lutando contra o governo de Cristina Kirchner. Nossa valorização severa da atual situação da FIT por não desenvolver uma ação política conforme o nível da crise nacional, tem como fundamento o reconhecimento do lugar conquistado. Assistimos a uma batalha dobrada que propõe uma única estratégia: mais Frente de Esquerda.

Em função desta conclusão temos proposto na Mesa da FIT a necessidade de uma campanha de conjunto, que destaque a necessidade de derrotar ao governo e a sua ofensiva contra os trabalhadores, a luta por uma paralisação ativa de 36 horas, e com uma palavra-de-ordem de poder definido: “Assembleia Constituinte soberana e com poder”, para reorganizar o país com medidas de emergência que evitem uma nova bancarrota nacional e dêem satisfação às necessidades mais imperiosas do povo, a partir da irrupção da classe operária no cenário nacional para “derrotar o regime do FMI e ao regime corrupto de macristas, kirchneristas e pejotistas”. Para isso temos proposto que a FIT lidere uma campanha política nacional, com atos em todas as províncias e um ato central nas próximas semanas. O tratamento do Orçamento no Senado e a realização do G-20 na Argentina oferecem excelentes possibilidades para levar esta campanha à prática. Temos o desafio único de enfrentar à direita com uma ascensão da esquerda revolucionária, com o método da luta de classes. Esse é o caminho.

Anúncios