Pablo Heller

Não haviam se esgotado as repercussões da onda destrutiva do furacão Michael que assolou a costa da Flórida, quando outro tremor – desta vez, proveniente de Wall Street– fez sacudir o país. Assistimos a uma nova queda da Bolsa nova-iorquina, ao longo de duas jornadas consecutivas, no que tem sido catalogado como uma “quarta-feira e quintas-feiras negras”, durante os quais o índice Dow Jones retrocedeu 832 e 546 pontos, respectivamente. Trata-se da segunda queda ocorrida, em 2018, depois da de fevereiro deste ano. Dita queda contagiou as bolsas europeias, do Japão e da China.

Um dos detonadores, conforme destacado pelos analistas, foi o fato que as ações das “tecnológicas” despencaram, começando por suas empresas líderes. Apple, Amazon, Netflix e Google registram algumas das perdas mais anunciadas. Amazon perdeu 6,2 % e Netflix retrocedeu 8,4 %.

Mesmo que já nos últimos meses vinham acumulando-se perdas entre as tecnológicas, associadas a riscos crescentes que estava obstaculizando o setor, a queda terminou de se precipitar quando se conheceu a notícia acerca da aguda diminuição na demanda de semicondutores.

O fato de que este novo golpe tenha se produzido em uma indústria de ponta e afete as suas naves emblemáticas explica a debilidade da recuperação norte-americana.

Há poucas semanas atrás, Trump havia destacado o aumento da Bolsa como um sintoma da ascensão e vitalidade da economia norte-americana. O crescimento do PIB real dos Estados Unidos para o segundo trimestre de 2018 atinge 4,2% anual. Isso significa que o PIB real dos Estados Unidos é 2.9% maior que há um ano atrás. A taxa “anualizada” foi a mais alta desde o terceiro trimestre de 2014. O desemprego diminuiu abaixo de 4 %, seu nível mais baixo desde 1969.

Precário
Este crescimento, no entanto, tem sido impulsionado pelos enormes cortes de impostos de Trump. Mas este incentivo não reverteu o caráter anêmico do investimento.

O investimento empresarial está promovendo uma modesta recuperação nos últimos trimestres, impulsionada pelo aumento de 16% nos ganhos corporativos, depois dos impostos. “Mas a maior parte desta bonança de benefícios para as empresas dos Estados Unidos, no ano de 2018, foi utilizada para pagar maiores dividendos aos acionistas e a recompra de ações das companhias para impulsionar o preço de suas ações, não em investimento produtivo. E dentro do investimento produtivo, a maior parte tem sido na indústria do petróleo e em ‘propriedade intelectual’ (software, etc.). O investimento em equipes e novas estruturas em outros setores tem sido muito modesta” (Michael Roberts, Sem permissão, 30-9)

Que o nível de investimento siga sendo pobre tem a ver com baixo o nível de rentabilidade. Os benefícios empresariais não financeiros seguem sendo inferiores aos níveis de 2014, inclusive após a ajuda de Trump. E nos setores produtivos da economia, na indústria, estão caindo de forma considerável, se forem medidos por empregado. Os benefícios recém se “recuperam”, quando são medidos depois de deduzir os impostos. Para as 500 maiores empresas norteamericanas, 49% de seus ganhos de 2018 devem-se aos cortes de impostos de Trump, segundo um relatório recente de Zion Research. Este recurso está perdendo seu vigor inicial.

O capitalismo norte-americano encontra um limite em suas possibilidades de valorização no campo produtivo, o que explica, por outro lado, que uma quota crescente dos benefícios empresariais que figuram nos balanços provenha do âmbito financeiro.

Partindo do quadro descrito, não será surpresa que o corte de impostos não tenha conseguido neutralizar o ônus da dívida corporativa. Com seus 8,6 bilhões de dólares, a dívida das empresas norteamericanas é hoje 30% mais alta que em seu pico anterior, registrado em setembro de 2008. A qualidade média dos devedores norte-americanos está decaindo. 22% da dívida corporativa não financeira pendente de pagamento inclui bônus “tóxico” de emissores de grau especulativo, e outros 40% tem uma qualificação BBB, apenas um degrau acima de “tóxico”. Em outras palavras, quase as duas terças partes dos bônus são de companhias comprometidas financeiramente, entre elas, muitos varejistas norteamericanos. Estas empresas têm muita dívida de grau especulativo que vence nos próximos cinco anos, o que se agrava devido à queda das vendas, quanto mais os consumidores fazem seus compra on-line. A quebra que acaba de se produzir da emblemática cadeia Sears reflete este cenário.

As taxas de juros que pagam as empresas norteamericanas são similares e até superiores às dos países emergentes, incluídos países com riscos de falência. Um aumento maior das taxas poderia levar à ruína a muitas delas. Isto é o que explica a reação intempestiva de Trump contra o FED (Banco Central) pela suba das taxas de juros.

Mas dita suba é o resultado da vulnerabilidade da economia e não o inverso. A queda da Bolsa expressa a divergência cada vez maior e insustentável entre uma valorização fictícia, por um lado, e o desempenho e resultados econômicos das empresas no processo de produção, por outro.

A suba da taxa de juros implica também um golpe aos consumidores (cartões de crédito, hipoteca, empréstimos). Contra o que sustenta a propaganda oficial, os rendimentos médios das famílias norteamericanas avançam pouco. “Para os trabalhadores não supervisores (não-diretores), que são a maior parte da força trabalhista norteamericana (133 milhões de 162), os rendimentos reais estão caindo, não aumentando, enquanto o ônus da dívida dos consumidores está crescendo” (idem).

A isto se agrega o impacto da própria dívida pública, que já supera o PIB em momentos em que o plano do governo aumenta o buraco fiscal ao expandir a despesa pública e reduzir, ao mesmo tempo, os impostos aos capitalistas. Há quem sustenta que esta queda é simplesmente uma correção passageira do mercado financeiro, originada em um tomada de ganhos, como tem ocorrido outras vezes no passado, após a qual o mercado de valores retomaria seu rumo de ascensão, sem perceber a crise de fundo que expressa em um impasse capitalista que se prolonga e prepara a transição, há dez anos da explosão financeira de 2008, para uma crise de maior envergadura. Não é casualidade que as principais publicações financeiras do mundo acendam os alarmes sobre o perigo de uma nova recessão. The Economist dedica a capa a esta ameaça.

Perspectivas
As tendências recessivas podem ser aceleradas como consequência da guerra comercial em desenvolvimento, da guerra cambial e financeira que carrega consigo, e da acentuação dos conflitos internacionais e da própria guerra. Este  cenário pode levar a um deslocamento e retrocesso da economia mundial, em momentos em que se constata uma desaceleração do resto das principais economias do mundo. No resto do mundo, a esperança de uma volta às taxas de crescimento anteriores à crise parece ter-se desvanecido. Na zona euro, o crescimento voltou a retroceder próximo a 2% anual, um terço abaixo das taxas anteriores à crise. No Japão voltou a 1%. A China também está lutando para se manter acima de 6% anual.

Pra não falar do colapso que se verifica nos países emergentes, onde os golpes da crise mundial estão pegando em cheio, reféns de uma dívida insustentável, e submetidos ao fogo combinado de um encarecimento do crédito e a fuga de capitais.

Neste contexto, importa assinalar que um dos detonadores ao qual se atribui a queda é a notícia de uma diminuição da oferta de petróleo, motivada pelas novas sanções dos EUA contra o Irã, o qual provocaria um aumento do preço do barril nos próximos meses. Este é o ponto em que a política se entrecruza com a economia.

A Bolsa é um termômetro do capital, tanto econômico como político e militar. Não se reduz a um modelo de transações financeiras.

Uma “correção” nos próximos dias ou ainda em semanas, caso ocorra, será um intervalo para quedas ainda maiores. É necessário que nós, trabalhadores, tenhamos uma clara consciência da envergadura da crise internacional e suas consequências no Brasil, Argentina, na América Latina e à escala mundial para que possamos construir uma atuação correspondente aos desafios propostos.

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