OSVALDO COGGIOLA

 

A vitória de Jair Bolsonaro no primeiro turno das eleições e gerais do Brasil pôs o país em estado de comoção e deliberação política. No mundo inteiro, principalmente na América Latina, por outro lado, se discutem as consequências do provável ascenso da extrema direita ao poder, não já num país de pequeno ou médio porte (como Áustria ou Hungria), mas de dimensões e população continental. Já se fala até numa possível “Internacional liberal” de extrema direita, chefiada por Donald Trump e Bolsonaro, com os Orban e Haidar, Salvini e Le Pen, como comparsas. O nazi-fascismo renasceria como força política mundial na margem do Atlântico que o derrotou na Segunda Guerra Mundial. Bolsonaro cresceu eleitoralmente na última semana da campanha eleitoral, em especial nos dias prévios à eleição, até atingir pouco mais de 46% dos votos válidos emitidos; nas semanas prévias seus percentuais eram bastante inferiores a 30%. Deve ser lembrado que, até um mês antes das eleições, a candidatura (cassada) de Luiz Inácio Lula da Silva, encabeçava as sondagens com percentuais situados entre 37% e 40%. O crescimento de Bolsonaro, qualificado de “surpreendente”, não obedeceu a uma captação massiva de “indecisos”, e não se baseou exclusivamente, nem principalmente, na degringolada das candidaturas de Marina Silva (Rede), abandonada pelos evangélicos ao seu nicho ecológico original (menos de 1%), e Geraldo Alckmin (PSDB); o deslocamento de entre 10 e 13 milhões de eleitores em direção à candidatura do capitão fascista captou amplamente, isto é uma simples questão matemática, entre os eleitores iniciais de Lula. Estes devem ser considerados como a base social do que os cientistas políticos denominaram “lulismo”, um suposto populismo despolitizado sui generis herdeiro das tradições do varguismo. A “vanguarda bolsonarista” de lúmpens que saiu espancando mulheres e homossexuais pelas ruas (e arrancou as placas em homenagem de Marielle Franco no Rio de Janeiro e assassinou o Mestre Moa do Katendê, mestre de capoeira, em Salvador) [estes receberão o que merecem, não perdem nada por esperar], essa corja se apoia sobre uma vasta massa passiva e despolitizada (sobretudo depois de 14 anos de desmobilização “lulista”) que se inclinou nas urnas pelo “candidato da porrada”. Apoiadores de Bolsonaro realizaram pelos menos 50 ataques de rua em todo o país nos três dias posteriores a 7 de outubro: esse foi seu verdadeiro “voto”.

A “surpresa eleitoral”, na verdade, está em outro lado. As abstenções, votos nulos e em branco atingiram 29% (eles tinham atingido um patamar de 19% em 1998, na última eleição de FHC). Nesse quadro, o pouco mais de 29% obtido por Fernando Haddad (PT), que deveria ser transformado em 30% se considerados os votos presidenciais do PSOL (um fiasco eleitoral de 0,5%) e pelo PSTU (0,05%, uma votação marginal, que não traduz a real influência social e sindical do partido), não podem ser considerados como a perda de dez pontos percentuais (ou de 20-25% do total de seus votos) pelo “lulismo”, na operação de transferência de seu caudal eleitoral para o “poste” da vez (que sim teria funcionado plenamente nas duas eleições de Dilma Rousseff). Dadas as características da situação política brasileira, originadas no golpe militar/parlamentar de agosto de 2016, e a polarização político-emocional da campanha eleitoral, os votos para o PT, o PSOL e o PSTU (não contamos os do PCO, por serem ultramarginais e “votos Cacareco” para uma sigla infame que boicotou iniciativas como o #elenão), esses foram votos para a esquerda em condições políticas repressivas, e independentemente do programa e intenções das suas siglas (seguramente desconhecidas, ou melhor, propositalmente ignoradas, por mais de 90% de seus eleitores). Isto é corroborado por algumas boas votações obtidas pelo PSOL para o governo do estado (SP, por exemplo) ou para cargos proporcionais (o PSOL passou de 6 para 11 deputados federais, a maioria de seus votantes votou pelo PT – Haddad – para presidente) e pela relativa recuperação eleitoral do PT em relação às eleições municipais de 2016. Isto não significa que se trate de uma esquerda consequente ou coisa remotamente parecida. As relações políticas de força depois do segundo turno (as sondagens atribuem 54-58% dos votos a Bolsonaro), independentemente de quem seja seu vencedor, devem ser analisadas levando em conta esses fatores, que sublinhamos devido ao fato de serem postos em segundo plano pela maioria dos analistas. Não foi, tampouco, uma “barragem nordestina” a uma ascensão fascista que conquistou 99% (sic) dos redutos tucanos, barragem alimentada pela Bolsa Família: em que pese Haddad ter sido vitorioso na região Nordeste (e só nela, dentro das cinco regiões brasileiras), Bolsonaro venceu em cinco de nove capitais nordestinas, incluída Recife, a capital de Pernambuco, cidade-natal de Lula. Ainda assim, a chapa PT-PCdoB, em que pese estar composta por uma desconhecida e um semidesconhecido do grande público, ficou só dois pontos percentuais abaixo (e oito milhões de votos acima) da chapa Lula – Leonel Brizola (mais conhecidos do que eles, só o feijão com arroz) em 1998, quando o ora badalado “antipetismo” jogava um papel marginal, ou não jogava papel nenhum. Na Câmara de Deputados, o PT ficou com 56 eleitos (as sondagens prévias lhe atribuíam 52), contra os 69 obtidos em 2014 (reduzidos a 61 depois da fuga provocada pelo afundamento do partido na lama da corrupção), ou seja, praticamente manteve suas posições, o que, depois da varrida da Lava Jato, deveria ser considerado quase um milagre, justificando a observação de Jânio de Freitas na Folha de S. Paulo (7/10): “Com a exceção relativa do PT e mais do PSOL, os partidos desapareceram, fosse por falta absoluta de expressão, fosse porque dissolvidos nas inúmeras traições”. Desde setembro, FHC tentou publicamente unificar o vasto “centrão”, a base política da Nova República, desde o PSDB até a Rede, passando pelo MDB, o PPS de Roberto Freire e tutti quanti, colhendo um fracasso político, e depois eleitoral, espetacular. Certamente, o PSL (a sigla de aluguel transformada da noite para o dia em fourre-tout do bolsonarismo) obteve 52 cargos de deputado, mas trata-se de um balaio de gatos cuja única “coerência” está dada pelo fato de 22 deles serem policiais (sem contar os militares reservistas), ou seja, uma unidade não política, mas corporativa, acompanhada de uma cambada heterogênea de “traidores”. O acompanhante do antigo capitão de artilharia (militar de antecedentes desastrados, segundo todas as informações), na chapa presidencial, é um igualmente desastrado general reservista (que provavelmente passará à história – com “h” minúsculo – como autor da proposta de “Constituinte de Notáveis”, “notavelmente” desastrada) filiado ao igualmente ignoto PRTB. A base parlamentar de um eventual governo Bolsonaro serão as bancadas evangélicas/BBB (Bíblia, boi e bala), espalhadas em diversos partidos e que já controlavam (inclusive sob os governos petistas) quase 50% da Câmara e do Senado, que negociam com ferocidade (pro domo sua) até o último centavo das verbas públicas, acrescidas da contribuição policial/militar do PSL, em absoluto decisiva. A base política real de Bolsonaro é o alto comando das Forças Armadas, precariamente conquistada pela intermediação dos generais e brigadeiros Augusto Heleno, Oswaldo Ferreira, Aléssio Ribeiro Souto e Ricardo Machado, todos reservistas, ou seja, todas potenciais cartas fora do baralho. A eleição de Bolsonaro é a continuação da Minustah no Haiti (chefiada por Augusto Heleno, cabeça do programa de governo de Bolsonaro), da intervenção militar no Rio (saudada por “progressistas” como um ataque estratégico à “banda podre” da polícia carioca), do assassinato de Marielle Franco (não esclarecido nem em vias de esclarecimento), da tropa de choque nas favelas e dos assassinatos de jovens negros, da criminalização e militarização das lutas sociais em geral. Considerados isoladamente todos os partidos, o PT ficou como o maior partido da Câmara pela primeira vez na história, devido ao literal afundamento dos partidos neoliberal/fisiológicos (PSDB e MDB, basicamente) do chamado “centrão”. Certamente, como escreveu um analista do Clarín argentino, “os mercados se entusiasmaram com Bolsonaro”: a Bolsa de valores reagiu com uma alta de 4,57% e um volume recorde de negócios no day after do primeiro turno presidencial. O entusiasmo já existia antes: nos últimos dois meses de campanha, as doações do empresariado e dos bancos à dupla (militar, não caipira) Jair & Hamilton, e ao seu hit “é melhor Jair se costumando”, compensaram largamente sua falta de tempo na propaganda eleitoral gratuita na televisão (não nas inserções pagas), indicando o caminho aos candidatos empresariais (como João Dória, que apunhalou pelas costas Geraldo Alckmin em favor de Bolsonaro) e pentecostais, defensores weberianamente calvinistas da fé regada a dinheiro vivo (ou seja, dos mercadores do Templo contra o Jesus da história). A burguesia nacional “progressista” virou fascista, não deixando margem para uma gama muito variada de conclusões. Isto qualifica a teoria ora em voga na mídia animada pelas “belles âmes”, a de que estaríamos testemunhando uma degeneração dos modos de vida brasileiros, uma crispação e “argentinização” (sic) da vida política e social, que explicaria tanto a violência nas discussões de trânsito como a ascensão de Bolsonaro, tese defendida em um desnecessário e excessivamente longo artigo publicado na Folha de S. Paulo (16/9) por dois cientistas sociais – um deles, ele próprio argentino (ou, como se diz naquelas bandas, no hay peor cuña que la del mismo palo) – usando o manjado e vulgar recuso de atribuir à “sociedade” (sem distinções de classe) a dérive fascista de suas classes dominantes (e dos estratos diretamente ligados a elas). O apoio dos mercados não garante estabilidade política futura a Bolsonaro, máxime num mundo em convulsão, nas vésperas de uma recessão internacional inédita, e num país mergulhado na pior crise econômica de sua história, com mais de trinta milhões de desempregados e subempregados, um retrocesso de 10% do PIB per capita em apenas dois anos (um índice de catástrofe bélica), uma dívida pública federal de R$ 4 trilhões e uma dívida total do Estado superior a R$ 5 trilhões, perfazendo uma dívida pública total de 80% do PIB (se considerada também a dívida privada, esta supera com folga 100% do PIB, um índice, este sim, de “Primeiro Mundo”). Como apontou o analista do Clarín (6/10), “os custos do ajuste desgastarão quem ocupar a presidência, e com muita velocidade”; a única proposta econômica de Bolsonaro, além de ataques aos direitos sociais e de uma privatização geral (que o alto comando militar não vê com simpatia no que se refere à Petrobras) é a criação de um superministério econômico unificando as pastas da Fazenda, Indústria, Planejamento e Secretaria Geral, ou seja, governar com mão de ferro a economia, como se este recurso bastasse para superar as contradições e a crise da acumulação capitalista, de raízes mundiais e não nacionais. Dai que, sem deixar de cuspir fogo contra Lula, Dilma, o PT e tudo que cheire a esquerda, o Estadão conclamasse, em editorial (22/9), por um “pacto pela governabilidade”, porque “uma vez fechadas as urnas, será necessário promover um grande entendimento nacional, que só funcionará se vencedores e vencidos reconhecerem o quadro de descalabro fiscal”; e insistisse, novamente em editorial (7/10), “por um pacto nacional”, “alguma forma de convergência em torno de interesses comuns… que se espera do próximo governo e também dos partidos que lhe farão oposição”. Para o órgão da oligarquia paulista, não é a hora de uma ditadura de partido único, mas de um vasto entendimento pluripartidário, incluindo a abjurada esquerda. Para o segundo turno, as sondagens atribuem a Bolsonaro mais do que a soma de seu percentual do primeiro turno mais aqueles das outras candidaturas direitistas, isto incluindo generosamente o percentual do ultraliberal/empresarial Amoedo, que andou lavando ponciopilatianamente as mãos de uma definição eleitoral. Isto implica que uma parte significativa dos votos de Ciro Gomes (incompreensivelmente incluído dentro da “esquerda”) também está migrando para o campo bolsonarista. O crescimento eleitoral ultradireitista, portanto, ainda não atingiu seu teto, correndo o risco de uma sobreprodução, isto é, de uma “vitória eleitoral (demasiadamente) consagradora” criadora de expectativas direitófilas exageradas. Os políticos inteligentes sabem (mas Bolsonaro provavelmente não) que, em política capitalista, como em economia, morre-se de escassez, mas também de abundância. Bolsonaro fugiu de debates diretos com Haddad, sob o pretexto de sequelas físicas da punhalada de um retardado mental, e iniciou um movimento para o centro, prometendo fidelidade à Constituição que, segundo Adolf Hitler, não passava de um pedaço de papel (o bigodudo alemão também jurou fidelidade à Constituição da República de Weimar, em sua posse em janeiro de 1933, para depois transformá-la em papel higiênico), coisa que Bolsonaro não sabe, mas entende. A chapa PT/PCdoB, que já estava no centro (embora seu eleitorado fosse de esquerda) moveu-se para a direita, acenando para o mercado financeiro (depois de prometer enfrentar o “cartel dos bancos”) e para o cadáver político da burguesia, os partidos do “centrão” moribundo; e também para o alto comando militar, do qual já se aproximou. Não há solução para a questão, de um ponto de vista eleitoreiro: não existe modo de mover-se para a direita e para a esquerda, mantendo-se simultaneamente no centro, num período de três semanas. Para a esquerda classista, o primeiro passo está na rua, no movimento das mulheres que já mobilizou centenas de milhares, na luta e na autodefesa de rua contra os assassinatos e agressões, no 20 de outubro do #elenão, que deve acompanhar o voto massivo da esquerda por Haddad/Manuela. O “reformismo sem reformas” do PT, e o fantasma do “lulismo”, não se esgotaram (ainda), e serão provavelmente sucedidos por um curto episódio centrista (PSOL). A questão política central, a estruturação de uma esquerda consequente e independente dos blocos capitalistas, se processa nesse quadro político concreto. Como o demonstra a mobilização nos mais diversos países (na América Latina em primeiro lugar) contra Bolsonaro, a frente única antifascista não é uma questão política nacional, mas internacional. Os explorados já sabem, pela experiência da ascensão nazista de 1933, que esta foi menos o produto da força do nazismo que da divisão suicida da esquerda e do movimento operário, porque isto é hoje até ensinado nas escolas no ensino fundamental (sendo talvez a maior vitória política póstuma de León Trótsky). A esquerda e os trabalhadores barrarão o fascismo, seja este eleitoralmente vitorioso ou não, mediante a frente única e uma alternativa política independente de todas as variantes capitalistas. O Brasil estará, nas próximas semanas, no centro da atenção política do mundo: sejamos capazes, nas ruas e nas urnas, de estar à altura desse desafio.

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