Jorge Altamira

 

A consagração eventual de Bolsonaro está desencadeando diversas especulações a respeito de sua agenda política internacional. O “bolsonarito” nativo, o saltenho Olmedo vislumbrou em uma entrevista na televisão um “eixo” com o colombiano Duque e o norte-americano Trump. Não mencionou ao sionista Netanyahu, ainda que tenha dito que expulsaria de Brasília a embaixada da Autoridade Palestina e há rumores que transladaria a embaixada “verde-amarela” à Jerusalém. Mais admissível é, no entanto, que o mencionado “eixo” se refira ao Pentágono norte-americano, cujos chefes, se sabe, têm fortes choques com Trump. Ao alto comando militar, a agenda da luta contra o narcotráfico se adequaria com sua intenção de avançar na militarização urbana do Brasil. O esquema terminaria fechando com uma ação golpista na Venezuela. Tudo isto tomado em seu conjunto sugere à esquerda e à classe operária a urgência de uma política revolucionária continental.

Nos corredores comenta-se também que Bolsonaro poria fim ao Mercosul, que de qualquer maneira se encontra em estado de extrema-unção. O propósito seria atingir um acordo de livre comércio com a União Europeia, que se encontra suspenso há um quarto de século – porque as automontadoras europeias querem liberdade de acesso, o mesmo que as chamadas empresas de serviços. O problema aqui é que Trump, em seu recente acordo comercial com México e Canadá, estabeleceu uma cláusula que proíbe a seus “sócios” assinar pactos com países que vulnerem os princípios da economia de mercado – como lhe atribui à UE e ao Brasil. Uma ala do exército brasileiro – “Militares da Dependência” (sic) – advoga por uma integração semi-incondicional com os Estados Unidos. Ocorre, no entanto, que como a China é a principal sócia do Brasil, essa “dependência” equivaleria à ruína – intolerável para a grandíssima oligarquia rural e sua planta preciosa, a soja, ou o minério de ferro. Além disso, como o provável ministro da Economia de Bolsonaro é pró-ianque, fora dos Estados Unidos temem que as privatizações da Petrobrás, Embraer ou Eletrobrás sejam entregues a um único licitador.

Bolsonaro, assim como fez Macri, terá que recorrer ao FMI? Os que se orgulham de saber dizem que não, e oferecem como prova contundente que o Brasil tem reservas internacionais de divisas em torno de U$ 350 bilhões, ou que o Brasil se autofinancia em um mercado de capitais local. Duas instrutivas mentiras: uma, porque aquelas reservas são brutas e estão alimentadas por rendimentos de capitais estrangeiros na Bolsa “local”, e porque essa Bolsa “local” tem uma composição elevada de investimentos externos. Enquanto a dívida pública do Brasil tem muita emissão – mais de um bilhão de dólares –, a privada tem menos, mas é suficientemente alta para armar um tumulto. O “carry trade”, tomada de empréstimos no exterior a taxas de juros baixas para investir a taxas muitíssimo maiores, está tendo no Brasil um mercado preferencial – pois está sendo praticada durante décadas a ruinosa política de metas de “inflação”. O obstáculo que se interpõe para que o Brasil apele ao FMI não é o Brasil, mas sim o FMI, que está ficando pequeno para resgatar às economias emergentes que sofrem fugas de capitais.

Bolsonaro terá que se atrever a liquidar o sistema de aposentadorias do Brasil que a burguesia e o FMI pedem aos gritos, caso contrário vai virar fiambre (frango com farofa). Mas pode igualmente ser fritado pela ousadia – nenhuma iniciativa nessa direção tem conseguido acordo no Congresso. As empobrecidas massas brasileiras não podem viver com uma aposentadoria complementar à pública, como pretendem os sanguessugas, que se autofinanciaram de suas arrecadações e foram as esvaziando. As grandes tetas financeiras do Estado – a Caixa Federal e o BNDES –, já não podem ser ordenhadas (mamadas) mais. Muito menos nos fundos de pensões. Só o que falta é que se freie a reciclagem de fundos estrangeiros. Bolsonaro enfrentará um futuro parecido com o de Macri e com o de Temer – o Brasil atravessa uma enorme crise industrial. Também como Macri precisa anistiar as empresas da Lava-Jato – caso contrário não haverá obra pública. A chave para destravar esta questão encontra-se nas mãos do Departamento de Justiça de Trump.

 

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