#EleNao

Jorge Altamira

A distância que separa os votos do ultra-direitista Bolsonaro e o resto dos que participaram no primeiro turno das eleições no Brasil, no domingo passado, funcionou de fato como sendo um segundo turno. Bolsonaro ficou a quatro pontos dos necessários para ganhar a presidência do Brasil, com cerca de cinquenta milhões de votos – uma vantagem de dezoito milhões de votos e dezoito pontos percentuais sobre o segundo, o candidato do PT, Fernando Haddad, apoiado por vinte e nove milhões de eleitores. Nenhuma combinação com as restantes forças políticas que foram às urnas poderia alterar, dentro de três semanas, o resultado favorável à direita – para que isso ocorra deveriam intervir fatores excepcionais.
A disputa no segundo

A direita, de qualquer forma, precisa reforçar a enxurrada do primeiro turno – uma diminuição significativa da diferença de votos produziria um governo débil. Bolsonaro já tem declarado que não tem a intenção de modificar sua campanha reacionária para atrair votos alheios, precisamente pela necessidade de estabelecer um Executivo forte que lhe permita governar acima do Congresso. Haddad, pelo contrário, pretende que o resto dos candidatos participem de sua campanha eleitoral, numa Frente Democrática explícita. Com esse propósito reuniu-se inclusive com o candidato de direita, Alckmin, o primeiro preferido da burguesia brasileira, antes de mudar apressadamente para Bolsonaro, e com o banqueiro Meirelles. Enquanto o lúmpen politiqueiro Bolsonaro aponta a acentuar sua rejeição à velha ordem política, Haddad procura nessa velha ordem um salva-vidas. É difícil, no entanto, que o consiga, pois ninguém está aceitando até agora subir no seu palanque eleitoral, e inclusive estão demorando no anúncio de intenção de voto.

O cenário político brasileiro explica-se pela envergadura colossal da crise sistêmica da ordem social e política do Brasil. O déficit fiscal (em especial o financeiro) é da ordem de 10% do PIB, próximo dos U$ 130 bilhões, a dívida pública supera 100% do PIB, mais de um bilhão de dólares; a recessão da indústria está entrando em seu quarto ano; o desemprego mais o subemprego atinge a mais de trinta milhões de trabalhadores; o Brasil tem o índice internacional mais alto de vítimas mortais da delinquência comum; o exército intervém na segurança de várias cidades, notadamente no Rio de Janeiro. A deterioração das condições econômicas e financeiras internacionais e a guerra financeira e comercial que se desencadeou entre suas principais potências, ameaçam levar o Brasil à suspensão de pagamentos.

 

Revanchismo militar

A ascensão política da escória social do Brasil obedece a vários fenômenos relacionados entre si. O de maior relevância é a bancarrota da experiência de Frente Popular, animada pelo PT, que governou entre 2003 e 2016 em associação estreita com o grande capital nacional e internacional, e com os principais partidos corruptos da burguesia. Com a proposta de construir “campeões nacionais”, em relação ao desenvolvimento de companhias brasileiras sócias de negócios internacionais, embarcou-se num enorme esquema de corrupção e numa arruinada política de subsídios. O muito difundido apoio econômico às famílias mais pobres – uma migalha neste festival – pretendeu operar como a folha de parreira das grandes negociatas. O segundo fator do giro político está sendo o fracasso miserável do governo Temer – fruto do golpe de estado que derrubou Dilma Roussef –, quanto ao quesito de superação da crise econômica e criar uma referência política estável a partir do seu seio. O que, por último, caracteriza a esta arremetida da direita é a operação do alto comando militar, que está ocupando posições estratégicas no estado – desde a recuperação do ministério de Defesa até a intervenção militar no Rio.

O enviado do Âmbito Financeiro (8/10) ao Brasil forneceu um detalhado relatório a respeito da estratégia político-militar desde 2014. O diário El País (5/10) informa que o comandante em chefe do Exército impôs a um general de reserva como assessor do novo presidente do Supremo Tribunal Federal – o equivalente à Corte Suprema da Argentina. Jair Bolsonaro é o instrumento político do alto comando militar – um golpe de estado com fachada eleitoral. O alto comando militar está conseguindo reunir sob sua asa os blocos parlamentares do ruralismo e das igrejas evangélicas, que se encontram mimetizadas em frentes políticas com partidos diversos. Além disso, está conseguindo impor no Congresso cerca de setenta militares da reserva. A patronal brasileira, que faz duas décadas apoiou Lula no governo, está desenvolvendo uma campanha de coação entre os trabalhadores, para neutralizar qualquer propaganda contra Bolsonaro e inclusive exigindo o voto para o direitista através de comunicados internos.

 

Fascismo, crise, perspectivas

É verdade que o apoio a Bolsonaro é arrasador nas classes mais altas e que a rejeição ao direitista é também elevado, segundo pesquisa do Ibope, entre os brasileiros que ganham até um salário mínimo, aqueles que mal cursaram o primário e a população negra. É claro, no entanto, que milhões de trabalhadores votaram no agente militar coagidos pela crise econômica e pela decomposição da vida urbana. O Brasil não é uma exceção neste aspecto; o colapso da esquerda tradicional e da burocracia sindical produziu uma atomização da classe operária que passa a ser presa da demagogia fascistizante. Segundo as primeiras informações, o PT perdeu no ABC industrial de São Paulo, e também não foram eleitas suas figuras históricas: Dilma Roussef e Fernando Pimentel, em Minas Gerais, Eduardo Suplicy, em São Paulo, e Lindberg Farías, no Rio de Janeiro. Não se trata, no entanto, de uma regressão de alcance histórico, mas sim conjuntural, cuja duração dependerá da evolução de conjunto da crise e de seus protagonistas políticos. A tutela militar de um governo eleito é uma operação por demais perigosa.

A crise econômica, sob o governo Bolsonaro, terá um alcance maior que a que tem enfrentado Temer, pelo peso dos problemas não resolvidos, por um lado, e pela acentuação da crise mundial, por outro. Nem a burguesia brasileira, nem o estado brasileiro têm os recursos próprios para lidar com uma crise desta envergadura. O correspondente do Financial Times adverte que “não está claro se o direitista que lidera o segundo turno sequer será capaz de cumprir com o que os mercados querem no caso de que se converta em presidente” (LatAm Viva, 5/10). A mãe de todas as reformas – a reforma previdenciária – colocará à prova a capacidade de todas as classes em disputa para defender seus interesses e objetivos. Na classe capitalista, e nas forças armadas em especial, uma privatização completa da Petrobras ou a entrega da aeronáutica Embraer à Boeing, desencadearão conflitos agudos. Estas privatizações estão sendo propostas pelo ministro de Economia ‘in pectore’ (ainda não oficial) de Bolsonaro, Julio Guedes, um ex-Banco Pactual, para reduzir a dívida pública com o que se consiga arrecadar.

 

#EleNao

As eleições puseram claramente o colapso das organizações operárias (petistas), como já havia ocorrido na ocasião do golpe contra Roussef. Também não enfrentaram a reforma trabalhista e o ajuste levados adiante pelo governo Temer. Para além de sua verborragia, não advertiram que estava em jogo uma briga contra o revanchismo militar e seus grupos de tarefas, por isso não convocaram à ação direta e a mobilização; manejaram as eleições como um trâmite burocrático. É o que pôs em evidência o movimento de mulheres com a mobilização, há dez dias, contra Bolsonaro, sob a consigna #EleNao, que se repetirão no 20 de outubro próximo – enquanto a CUT, a UNE e o MST seguem paralisadas. A política da Frente Democrática com os partidos patronais (que repudiam a luta de ruas) e da resistência à direita por meios institucionais, é incompatível com o povo na rua. No caso da mobilização de mulheres, estamos na presença de um fenômeno de massas, no desenvolvimento da crise política presente, que será o fio condutor dos explorados nas diferentes instâncias desta crise. Nesta linha de ação chamamos aos sindicatos operários e camponeses e à juventude, a uma campanha para convocar um Congresso de Delegados eleitos para discutir uma política de luta de classes contra o candidato fascistizante do aparelho militar e seu eventual governo.

Como partido, impulsionamos a consigna e os métodos do movimento de mulheres: #EleNao, às ruas, à greve, à formação de piquetes anti-fascistas. Não apoiamos, portanto, nem a Haddad, nem ao PT, nem às suas políticas, nos declaramos em oposição a elas. Aderimos e impulsionamos com nossa política a posição de votar a Haddad contra Bolsonaro, ou seja, não com a política do PT, mas sim com a política que esboça o movimento feminino. Adotamos esta posição como um método para desenvolver a unidade e a convergência com o movimento popular de mulheres que volta a ganhar a rua contra o fascismo.

 


Coerência

O Partido Obrero tem desenvolvido uma política exemplar em toda esta crise, desde o impeachment de Dilma Roussef caracterizamos como um golpe de estado (ou seja de todas suas instituições, especialmente o exército), não como um golpe parlamentar ou palaciano. O segundo turno será uma culminação provisória deste desenvolvimento político. No passado, chamamos a votar no PT como um canal de desenvolvimento potencial da classe operária, com claras diferenças políticas com sua direção. Em 1995, convocamos a votar somente em seus candidatos operários, devido a que Lula havia inaugurado a política de Frente Popular com um latifundiário como vice, em 1989. Daí em adiante deixamos de apoiar eleitoralmente o PT, porque tinha se convertido no instrumento preferencial da burguesia – recusamos a votá-lo em 2002. Nosso chamado atual é inteiramente diferente: o PT é o partido de uma camarilha em decomposição, não um canal de luta. Convocamos a votá-lo contra Bolsonaro, porque é uma ponte com as massas que procuram, apesar do PT, um caminho de combate contra o fascismo.

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