LUÍS CARMANIM TARRAGÔ

O candidato de uma das tantas siglas de aluguel vegetantes do sistema partidário brasileiro, do quase invisível PSL, o ultradireitista, torturador e belicista, Jair Bolsonaro, sofreu um atentado às vésperas do dia em que se comemora a independência do Brasil, uma pátria de uns poucos que vivem da miséria de muitos, em Juiz de Fora, Minas Gerais, ocasião em que promovia um ato público de campanha. O pedreiro Adélio Bispo de Oliveira conseguiu burlar a segurança composta por policiais federais e desferiu-lhe uma facada no abdômen. Existe uma hipótese rondando o imaginário popular acerca da possibilidade do atentado ter sido forjado para forçar a subida nas pesquisas do candidato apologista da ditadura militar, das torturas, etc., que foi beneficiado junto com seus pares pela Lei de anistia, ampla, geral e irrestrita, que visava em última instância deixar esses tipos de delinquentes, homicidas e genocidas soltos para fazerem o que bem entendessem.

As eleições em curso, que já ocorriam num quadro de turbulência política, entraram num compasso de espera no que diz respeito ao rumo que irão tomar. Em tese, a direita e o próprio candidato Bolsonaro podem sair fortalecidos do episódio em questão, com uma tentativa inclusive de condenar a esquerda pelo atentado. A posição quase unânime tomada pelos principais partidos da esquerda democratizante, que juntos com os demais partidos representantes genuínos da burguesia, foi de repelir o ataque em nome da bela democracia dominante no país.

Democracia esta que é resultante de uma operação política de transição do regime militar para a Nova República de Sarney, Toninho Malvadeza, Marco Maciel entre outros, próceres da ARENA e da ditadura militar, que contava com um verniz “esquerdizante” para embelezar o regime político democratizante, com uma fachada civil, de continuísmo do regime da farda verde-oliva e do tacão das botas dos generais, a saber, o PC do B, partido-chave para o funcionamento do domínio político do sistema de propriedade privada dos meios de produção.

Democracia, que neste momento se apoia num governo que é resultado de um golpe de estado, com tropas do exército ocupando as ruas do Rio de Janeiro, assassinato de uma vereadora negra e do seu motorista até hoje não esclarecido, nem seus assassinos e os mandantes punidos, com direito ao candidato que está na UTI e o seu candidato a vice, general Mourão, de defenderem golpe militar, metralhar militantes petistas no Acre, defender o massacre de Eldorado dos Carajás no Pará, etc., com o candidato do PT, Lula, disparado nas pesquisas de intenção de votos, preso em Curitiba, por um judiciário agindo sob pressão das forças armadas, etc. e com consequências sociais das mais nefastas para os trabalhadores, que sofrem com um índice de desemprego que é característica das economias em depressão, com um cruel rebaixamento da massa salarial apoiado nos mecanismos da reforma trabalhista, terceirizações e uma emenda constitucional, EC 95, que congela os investimentos nas áreas essenciais para a vida dos trabalhadores, como saúde e educação, e os salários dos servidores públicos por 20 anos, a chamada emenda da morte. Como vemos, um maravilhoso regime político com suas maravilhosas consequências sociais e políticas, o suprassumo da humanidade!

A política do candidato “vitimizado” é militarizar o Congresso Nacional e o conjunto do regime político e colocar os trabalhadores, as mulheres, os índios, os negros, os gays, etc. em permanente estado de sítio. Continuar enchendo os bolsos de dinheiro e permitir que o grande capital nacional e internacional continue perpetuando o maravilhoso sistema da propriedade privada dos meios de produção, que sofre há mais de uma década uma crise que apresenta inclusive características de autodissolução. The Economist e outros órgãos de imprensa internacionais, que expressam os interesses do imperialismo, já deixaram claro que o establishment não aposta nessa alternativa, pelo menos, por ora, e seus candidatos preferenciais não “decolam” nas pesquisas e já começam a voltar seu olhar para o candidato a vice de Lula, Fernando Haddad, que governou a cidade de São Paulo para o grande capital, apoiado naquela ocasião, por nada mais, nada menos do que Paulo Maluf e o presidente golpista, Michel Temer, e que se aliou com Geraldo Alckmin em Paris para reprimir o Movimento do Passe-livre, que foi o principal estopim para as multitudinárias mobilizações e manifestações que explodiram em junho de 2013.

Até a viúva de Marielle Franco, Mônica Benício, lamentou o atentado contra Bolsonaro, mesmo depois do candidato fascista ter declarado que o assassinato da sua companheira era apenas mais um episódio de uma mulher negra, homossexual, em nome do Estado Democrático de Direito. (Jornal O Globo, 07/09). Os revolucionários de Outubro de 1917 já haviam na Rússia de 1905 tirado conclusões históricas que “(…) as próprias classes reacionárias eram as primeiras que geralmente recorriam à violência, à guerra civil, a ‘colocar a baioneta na ordem do dia’ (…)” diante da eminência de uma explosão social com características revolucionárias, e que as “(…) ilusões constitucionais e os exercícios escolares de parlamentarismo não serviam(…)” a não ser para desviar a atenção das massas e descaracterizar o caráter de classe social, de luta do proletariado contra a burguesia nacional e o imperialismo. (Lênin, Duas táticas da social-democracia na revolução democrática, 1905)

Contra as tendências bélicas e o militarismo expresso pelos golpistas Bolsonaro e seu vice, general Mourão, entendemos que os trabalhadores devem buscar a luta pela independência de classe de todas as alternativas que expressam os interesses materiais dos seus verdugos, tanto os do grande capital nacional e internacional, que fazem parte da classe dominante, como daqueles a quem as suas condições sociais e históricas lhes reservaram o destino de contumazes colaboradores de classe, para tentarem fazer passar a ideia de que os interesses sociais e políticos dos milhões de vítimas do capitalismo assoladas pela fome, pela miséria absoluta, são os mesmos dos verdugos que à medida que a miséria cresce num polo, cresce vertiginosamente sua opulência de verdadeiros parasitas do trabalho alheio, em outro polo. Só a luta por um governo dos trabalhadores pode tirar o país do atoleiro em que está cada vez mais se afundando.

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