Texto de Ângelo Henrique

Texto para entender como a classe operária deve lutar e buscar sua unidade, avançar na organização dos trabalhadores negros e pela demanda da população negra, como parte central de avançar na construção da ditadura do proletariado levantando e lutando pelas demandas da população negra.

 

A escravidão como base da formação da burguesia brasileira, no Brasil

A acumulação de riqueza, de capital primitivo para a formação da burguesia ocorre através do tráfico de escravos.  O Rio de janeiro foi o principal porto de entrada dos escravos capturados na África, o principal mercado onde os escravos negros foram comercializados, enriquecendo os comerciantes. Conhecido na cidade como de grosso trato, a exploração  escravagista nas plantações ao longo de toda sua história colonial até 1988 foi o que permitiu a riqueza da metrópole e a formação da burguesia no país, O Estado de São Paulo recebeu investimento provenientes da exploração escravagista da sua produção cafeeira e de outros Estados do país.

 

Como foi a relação de produção escravagista

Era a violência aberta e brutal. Em Campinas, no Estado de São Paulo, tida como exemplo dos senhores no tratamento brutal dados aos escravos, era público existia diversos patíbulos (forcas) construídos pela cidade – como a presente no Largo da Santa Cruz atualmente (Praça Quinze de novembro) no bairro do Cambuí – foi construída para a sentença do escravo cabinda Elesbão, que fora enforcado em 1835. Sentenciado à forca, decapitação e partes do seu corpo espalhado pela cidade, ele junto a outro escravo foram acusados de assassinar seu senhor em Jundiaí e foram capturados em Campinas; naquele momento a execução era pública, na praça, como forma de coagir e reafirmar a autoridade do regime escravocrata. O pelourinho ficava a 200 metros do atual Largo das andorinhas, ali eram executadas as sentenças das chibatadas.

Todo o desenvolvimento econômico e o surgimento de uma aristocracia ligada ao café, o ouro verde, em Campinas se dá a partir da exploração de trabalhadores escravizados; e para tanto é utilizado de forte violência para conter qualquer levantamento dos escravos, e qualquer questionamento ao regime de produção escravagista, da origem da cidade, para produção do açúcar, até o auge do café. Campinas atingiu o posto de maior contingente de escravos da província, isso de 1864 até meados dos 1880, como aponta o estudo de Amaral Lapa no livro Cidade Cantos e Antros.

Eric Williams, no livro Capitalismo e Escravidão, demonstra como o racismo surge da necessidade material, ou seja, da necessidade de justificar ideologicamente a condição de exploração às quais iam sendo submetidos os negros africanos. A ideologia racista surge como base moral para a barbárie que se iniciava no continente, no processo de colonização dos povos nativos e a escravização dos negros africanos nas “plantations” (monocultura de exportação). Como no plantio de cana de açúcar, o papel da Igreja foi central utilizando de argumentos bíblicos para legitimar a escravização. “A escravidão no Caribe tem sido identificada com o negro de uma forma demasiado estreita. Com isso deu-se uma feição racial ao que é basicamente um fenômeno econômico. A escravidão não nasceu do racismo: pelo contrário, o racismo foi consequência da escravidão. O trabalho forçado no Novo Mundo foi vermelho, branco, preto e amarelo; católico, protestante e pagão.” Essa ideologia vai se transformando e ganhando formas diferentes nos diversos países do continente, isso devido a fatores como a proporção da população negra em comparação à população branca. Isso se expressa nas leis. Nos EUA vemos um racismo aberto e brutal como mostra o documentário A História do Racismo e do Escravismo produzido pela BBC. No Brasil, por ser composto por uma população em sua maioria negra, o racismo assume contornos sutis, mas não menos brutal. É essa máquina da escravidão que permite o surgimento do capitalismo como aponta Eric Williams.

Uma breve retomada histórica permite-nos ver os trabalhadores que produziam a riqueza nos séculos passados, dá para entender como ocorre a formação da burguesia brasileira, herdeira da escravidão ligada diretamente ao tráfico de escravos e ao latifúndio, como mostra no livro Questão negra, marxismo e classe operária no Brasil. A burguesia nacional nasce entre a massa negra e a pressão da metrópole e utiliza da formação de uma classe média branca como forma de conter a luta e reproduzir os valores morais burgueses entre eles centralmente o racismo.  Estes fatores contribuíram muito para durante o processo de transição para a sociedade capitalista com o trabalho assalariado, como aponta o estudo de Florestan Fernandes, a população negra fosse espoliada moralmente, economicamente, culturalmente e excluída dos polos mais dinâmicos do mercado de trabalho que iam se formando, sendo posta à margem da sociedade no que ele denomina de ralé – pessoas em situação de desemprego, em postos precários e degradantes, enfrentando constante repressão policial.

Atualmente não tem como negar que o racismo tem como base material a divisão da classe operária, isso implica em trabalhadores brancos aceitarem que colegas negros se coloquem nos postos precários com salário rebaixados, o que faz baixar de conjunto o preço da força de trabalho, além de impedir que a população negra se afirme enquanto sujeito histórico.

Todos os trabalhadores precisamos compreender que nascemos em uma sociedade racista e esse racismo é uma forma de gerar passividade e aceitação da condição de existência dos negros, ou seja, num sistema capitalista já desumano e perverso que aumenta ainda mais o grau de exploração a um setor específico dos trabalhadores.

No capitalismo, o racismo é introjetado desde de criança, é inerente ao modo de produção, é necessário romper com essa ideologia e assumir a luta dos negros como bandeira de toda a classe operária, enxergar Zumbi dos Palmares, Dandara, Maria Conga e tantos outros lutadores e lutadoras como símbolo de todos os trabalhadores. Repudiar a teoria da democracia social de Gilberto Freyre, que retira o conflito de classe e retira o negro enquanto sujeito, negando a raça dizendo que existe uma miscigenação. Este argumento é falso e funcional ao capitalismo brasileiro com uma população majoritariamente negra. A história vem sendo deturpada, a luta e resistência negra é apagada do processo de abolição. Temos de ter como exemplos os jacobinos negros no Haiti em 1791, onde se levantaram no que era a colônia mais importante da França, com maior produção de açúcar, e venceram exércitos franceses e ingleses deixado com medo os senhores de escravos de todo o continente.

 

 

 

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