Por Daniel Gaido

O sionismo celebrou recentemente o 70° aniversário da criação do Estado de Israel, um acontecimento brutal que teve lugar no marco da expulsão de 800.000 palestinos de suas terras. Dita limpeza étnica da Palestina – como a denominou Ilan Pappe, o principal historiador deste evento – não foi, como afirmam os sionistas, produto das condições de sua “guerra de independência” de 1948, mas sim de um plano sistêmico de expulsão da população árabe nativa, que praticaram desde os começos mesmos do assentamento sionista e que voltaram a praticar em 1967 durante a Guerra dos Seis Dias, que resultou em 200.000 novos refugiados palestinos como resultado da ocupação da Faixa de Gaza e Cisjordânia. Este é a origem da questão dos refugiados, que está no coração da causa palestina: hoje em dia existem ao redor de 7,2 milhões de refugiados palestinos, e um da cada três refugiados em todo mundo é palestino. A primeira coisa que deve ficar clara, portanto, é que o sionismo é um movimento colonialista, e que o direito incondicional à volta de todos os refugiados é a demanda central do movimento de libertação nacional palestino, um direito democrático elementar que só pode ser implementado pondo fim à partilha da Palestina imposta pelo sionismo e unificando ao país no marco de um estado único, laico, democrático e socialista. É a menção do pequeno grupo trotskista que operava naquele tempo na Palestina ao ter se pronunciado abertamente contra a partilha – ver a declaração “Contra a partilha!”, publicada no jornal Kol Ham’amem (A voz da classe, nº 31), setembro de 1947, pela Liga Comunista Revolucionária – Secção Palestina da Quarta Internacional.

 

O sionismo como movimento colonialista da etapa de decadência capitalista

A esta proposta histórica e política da questão palestina e de sua solução se pode argumentar que outros Estados, incluindo a Argentina e os EUA, também tiveram raízes colonialistas e foram criados sobre a base de um processo de expulsão e extermínio da população local, processo que de fato continua até os dias de hoje, como o testemunha a morte de Santiago Maldonado e de Rafael Nahuel, o jovem mapuche assassinado pela prefeitura. O que diferencia a estes processos do sionismo, além do lugar central que ocupa na política contemporânea na Palestina a luta contra ao colonialismo, é que o sionismo é um movimento colonialista que se originou tardiamente, como produto da decadência do capitalismo – mais precisamente, com o escândalo do caso Dreyfus em 1894. Enquanto o capitalismo, em sua etapa de ascensão, libertou aos judeus dos guetos e integrou-os à sociedade burguesa, desde fins do século XIX, e em massa após a Primeira Guerra Mundial, observamos a ascensão de movimentos e partidos antisemitas. Enquanto os marxistas chamaram a combater o antisemitismo integrando os trabalhadores judeus ao movimento operário e socialista, e estimulando aos trabalhadores a lutar contra qualquer forma de racismo e discriminação, o sionismo tomou o rumo oposto: adaptando-se à decadência do capitalismo, afirmou que a integração dos judeus proclamada pelas revoluções burguesas era um erro, e que os judeus deviam voltar a viver num grande gueto, que desta vez tomaria a forma de um Estado judeu na Palestina. Como a ideologia sionista tem uma base não só colonialista, mas também teológica (em Israel não existe o casamento civil, e os casais “mistos” – pertencentes a religiões diferentes – devem se casar no estrangeiro), os sionistas declararam a guerra ao idioma que falavam então os judeus europeus, o yiddish – em torno do qual se tinha desenvolvido uma cultura com uma forte influência socialista– e reviveram o hebreu, o idioma dos rituais religiosos judeus, que já na época de Jesus tinha sido extinguido e tinha sido substituído pelo aramaico.

O imperialismo compreendeu imediatamente a utilidade deste novo movimento político, e estimulou-o abertamente. Zubatov, o diretor da Ojrana zarista e organizador de “sindicatos policiais” antes da revolução de 1905, fomentou abertamente o sionismo a fim de meter uma cunha entre os trabalhadores judeus e russos. Mas o que melhor testemunha os laços históricos estreitos entre o colonialismo sionista na Palestina e o imperialismo é a Declaração Balfour, uma carta datada de 2 de novembro de 1917, do Secretário de Assuntos Exteriores britânico Arthur James Balfour a Lord Rothschild, um líder da comunidade sionista britânica, para sua transmissão à Organização Sionista Mundial, a qual estabelecia a posição, lembrada numa reunião do gabinete britânico de 31 de outubro de 1917, de que o governo britânico apoiaria os planos sionistas para o estabelecimento de um “lar nacional” judeu na Palestina. Naquele tempo, os sionistas possuíam somente 2% do território da Palestina, pelo qual a carta representava um claro alento ao assentamento de colonos sionistas em território árabe, motivado pelo entendimento de que a hostilidade que dita atividade geraria entre a população nativa despossuída transformaria aos colonos em instrumentos úteis em mãos dos imperialistas.

“Sionismo versus Bolchevismo: Uma luta pelo alma do povo judeu”

Quem melhor compreendeu o significado profundo do sionismo para o povo judeu foi o ideólogo e líder do imperialismo britânico Winston Churchill. Num artigo publicado no Sunday Herald, de 8 de fevereiro de 1920, afirmou abertamente que a luta entre sionismo e bolchevismo era “uma luta pelo alma do povo judeu”. Os judeus, essa “raça mística e misteriosa”, tinham dado lugar ao “evangelho de Cristo” e ao “evangelho do Anticristo” (o bolchevismo). Churchill procedeu então a louvar ao que chamou os “judeus nacionais” e a insultar aos “judeus internacionais” – entre os que nomeou a Karl Marx, Trotsky e Rosa Luxemburgo – como responsáveis por uma “conspiração mundial para a bancarrota da civilização”. Após fazer uma lista de personalidades judias destacadas no governo soviético e no comunismo alemão, Churchill procedeu a afirmar que, “em violento contraste com o comunismo internacional, o sionismo apresenta ao judeu uma ideia nacional de caráter indiscutível. Ficou reservado ao governo britânico, como resultado da conquista da Palestina, ter a oportunidade e a responsabilidade de assegurar para a raça judia de todo mundo um lar e centro de sua vida nacional. A habilidade política e o sentido histórico do senhor Balfour estiveram prestes a aproveitar esta oportunidade.”

A criação de “um Estado judeu sob a proteção da Coroa britânica” na Palestina “seria favorável e estaria particularmente em harmonia com os mais autênticos interesses do Império britânico.” Churchill pensava que “o sionismo já se havia se convertido num fator nas convulsões políticas da Rússia, como uma poderosa influência que rivaliza nos círculos bolcheviques com o sistema comunista internacional”, citando como prova “a fúria com a qual Trotsky tem atacado aos sionistas”, e concluía fazendo um apelo “aos judeus leais” a “combater a conspiração bolchevique” mediante “a construção com a maior rapidez possível de um centro nacional judaico na Palestina”.

Retrospectivamente, é claro que os planos do imperialismo foram exitosos: os judeus que ficaram apegados nas redes do sionismo, tanto na Palestina, como fora dela, afastaram-se cada vez mais de qualquer atividade revolucionária e na atualidade são arrastados ao processo de fascistização crescente que está existindo em Israel. Para citar só um exemplo recente, em 14 de maio de 2018, Israel assassinou 60 palestinos e feriu mais 2.771 manifestantes, em Gaza, em menos de 24 horas.

As tarefas dos revolucionários na Palestina

O stalinismo jogou e joga ainda hoje um papel nefasto na desarticulação e desorientação da esquerda palestina, desde o apoio que Stalin deu à partilha do país em 1948 até o apoio atual do Partido Comunista de Israel aos “dois estados” – um eufemismo para o confinamento dos palestinos em campos de concentração como Gaza. Mas a crise do trotskismo também jogou um papel na desorientação da esquerda mundial em torno da questão palestina, desde o chamado de Moreno a expulsar aos judeus da Palestina (uma barbaridade que só pode contribuir a forçar aos trabalhadores judeus na Palestina a cerrar fileiras em torno do sionismo) até o apoio de certas “internacionais” trotskistas contemporâneas à partilha da Palestina (a filial israelita do Committee for a Workers’ International, Ma’avak sotzialisti, apoia a posição dos “dois estados”).

Frente a toda esta decomposição política, as posições que os revolucionários na Palestina devem defender são claras, e estão ancoradas nas posições históricas do trotskismo na Palestina: o direito incondicional à volta dos refugiados; o fim da partilha e a criação de um estado único, laico, democrático e socialista na Palestina; por um governo de trabalhadores, camponeses e refugiados. Mas dado que a diáspora palestina está fortemente presente nos países limítrofes como Jordânia, o Líbano e Síria, e que a sorte do povo palestino está intimamente unida à dos trabalhadores da região, a maioria dos quais sofre sob o duplo jugo dos despotismos locais e das intervenções imperialistas, ditas consignas devem ir unidas indissoluvelmente à luta por uma Federação socialista do Oriente Médio.

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