(Contribuição de Igor Luz, militante do Setorial Ecossocialista do PSOL, à Tribuna Classista. Entre em contato conosco para publicar seu texto em nosso site por meio do email tribunaclassistabr@gmail.com)

A bancada ruralista, por meio de sua bancada financiada pelo bilionário lobby das indústrias químicas pressiona esta semana por mais um ataque à saúde da população e da natureza brasileiras. Desta vez, a sua sanha pelo lucro a qualquer custo é ainda maior, fortalecida pelas suas aliadas bancadas da bíblia e da bala, num cenário de aprofundamento do regime de exceção do capitalismo brasileiro.

Embora pouco conhecida, a história da agricultura moderna deriva principalmente da ciência iniciada com o advento da 2ª revolução agrícola, iniciada em meados do Século XIX. Foi àquela época que, segundo os pesquisadores franceses Marcel Mazoyer e Laurence Roudart, somada a outras práticas, a quimiquização da agricultura levou os agricultores a dependerem de forma crescente de insumos externos aos seus estabelecimentos rurais1.

Àquela época, os adubos utilizados eram produzidos com matérias primas existentes nas próprias regiões, como esterco e pó de rocha moído, além da produção de alimentos ser obtida de diversas espécies vegetais e animais.

Do início da Segundo Revolução Agrícola até o Século XX, passando pela “Revolução Verde” a implantação de grandes monoculturas, o uso de produtos químicos altamente solúveis, a utilização de maquinário pesado sobre o solo e a seleção artificial de plantas altamente dependentes de grandes quantidades de fertilizantes causaram o enfraquecimento da resistência natural das plantas e a decadência dos solos cultiváveis, pela morte dos organismos decompositores e mineralizadores do solo.  Por esta razão, a utilização de produtos químicos para as doenças de plantas veio a se alastrar.

O alemão Justus Von Liebig, conhecido como o pai da Química Agrícola, havia descoberto ainda no Século XIX, a fórmula do NPK (Nitrogênio, Fósforo e Potássio), e supôs que a adição crescente desses fertilizantes químicos fosse o suficiente para o aumento da produtividade agrícola2.

Em 1909, o também alemão Fritz Haber conseguiu sintetizar o Amoníaco a partir do Nitrogênio presente no ar, primeiro fertilizante químico não dependente de fontes naturais (os outros possuíam matérias primas naturais, mas para se tornarem altamente solúveis tinham que passar por tratamentos químicos). Grandes empresas como a BASF acompanharam seus primeiros experimentos3.

Também químico da Basf, Carl Bosch adaptou os modelos de Haber para que fossem mais comerciais e usados em áreas maiores.

Passou se a usar tais fertilizantes em escala cada vez maior, acreditando-se estar resolvido o problema da fome, porém com a chegada da 1ª Guerra Mundial em 2014, Haber e outros cientistas que antes se dedicavam à erradicação da fome, foram obrigados ao desenvolvimento de armas químicas, as quais utilizavam matérias primas  e  processos de produção utilizados na síntese dos fertilizantes.

Daí foram desenvolvidas as primeiras armas químicas que, embora depois proibidas, possibilitaram a produção de inseticidas, fungicidas e depois herbicidas. Foi o casamento ideal para a Indústria da Guerra, já que as técnicas adotadas na agricultura favoreciam e favorecem ainda hoje a proliferação das doenças de plantas3.

Os herbicidas (químicos utilizados no controle das consideradas “plantas daninhas”), assim como os adubos nitrogenados e os inseticidas, também são derivados da indústria da Guerra, já que os primeiros herbicidas produzidos derivam do agente laranja utilizado pelos Estadunidenses na Guerra do Vietnã, afim de desfolhar as florestas para melhor visualização dos Vietnamitas4.

Tais evidências, assim como a utilização de agrotóxicos no mundo, sobretudo em países em desenvolvimento como o Brasil, onde cada pessoa consome direta ou indiretamente 7,3 litros de agrotóxicos por ano5, trazem à tona a real intenção destes setores que fazem parte do 1% da população que domina a economia mundial: a superioridade do lucro em relação á saúde da população e da natureza brasileiras.

Se em conflitos agrários com povos indígenas os agrotóxicos ainda são utilizados explicitamente como arma, despejando-se veneno sobre seus territórios tradicionais por avião5, para o restante da população o perigo também é alarmante, como relata a Física indiana Vandana Shiva. Para a cientista, “a comida deixou de ser uma fonte de nutrientes e se tornou um produto, algo com o qual se especula e se obtém um benefício econômico”6. Complementa ainda que “75% das doenças e problemas de saúde da humanidade são causados por uma agricultura globalizada e industrial”.

Desta forma, é urgente que os movimentos sociais do campo e da cidade denunciem e se coloquem nas ruas e nas redes contra mais esta Guerra (literalmente) contra o povo, materializada no Projeto de Lei 6299/2002 de autoria do Ministro da Agricultura Blairo Maggi.

É importante salientar que hoje, caso alguém sofra uma intoxicação aguda por agrotóxico, dificilmente um médico conseguirá apontar um diagnóstico e prognóstico correto para o paciente, já que quando compramos um alimento convencional não é obrigatória a informação de quais agrotóxicos foram utilizados em sua produção. Portanto, é inaceitável que se deixe o consumidor ainda mais vulnerável ao direcionar somente ao Ministério da Agricultura o processo de registro de agrotóxicos, retirando da Anvisa e do Ibama o poder de veto, como defende o projeto 3200/2015.

Alertamos ainda contra o projeto de Lei 34/2015, que extingue o uso obrigatório da letra T para alimentos que tenham em sua composição ingredientes transgênicos. Os transgênicos não possuem níveis seguros de consumo (Ingestão Diária Aceitável). Como observado pelo cientista e professor Sebastião Pinheiro em seu livro “Transgênicos: o Fim do Gênesis”, a inserção de genes produzem novas proteínas nos alimentos, que são estranhas à co-evolução dos alimentos e do homem7.

O pesquisador previu, nesse livro publicado há quase 20 anos, que a engenharia genética buscaria dominar o ser vivo, os recurso naturais e todo o patrimônio natural, retirando dos seres vivos sua principal característica de perpetuação, a capacidade de multiplicar-se livremente respondendo às adversidades do ambiente. Como um capital, ele só se multiplicaria quando agregasse valor ao seu proprietário.

Pela união dos povos do campo e da cidade, avançar na transição agroecológica do Século XXI!

Nós propomos um modelo de produção de alimentos baseado na pequena e média produção, assim como na agricultura urbana, que integre os conhecimentos tradicionais às diversas formas de agricultura orgânica (sistemas agroflorestais, agricultura biodinâmica, agricultura natural), e os conhecimentos científicos obtidos até aqui.

É necessário aos desafios do Século XXI que pensemos a agricultura a partir de sua própria criação, como a própria origem da palavra denota: “ager”, do latim significa campo/território, e “cultura” significa cultivo. Logo a forma como as pessoas produzem e consomem seus alimentos está ligada intimamente à história das comunidades onde vivem.

Por isso, uma agricultura efetivamente sustentável deve valorizar o máximo possível a utilização de espécies de plantas e recursos locais/regionais, de forma a garantir soberania alimentar e elevação da qualidade de vida de quem produz e de quem consome, diminuindo os problemas causados pelo transporte de alimentos a longas distâncias, como o desperdício e a poluição atmosférica.

Deve responder aos principais problemas agrários, contribuindo para manter a população rural no campo, para alcançar a igualdade de gênero nos trabalhos, para desenvolver condições dignas e humanas pra quem na terra trabalha, para elevar a renda e qualidade de vida dos agricultores familiares, praticando uma agricultura sem uso de venenos e distribuindo a terra para quem nela realmente trabalha.

Exemplos positivos não faltam: no DF temos o exemplo dos agricultores do Lago Oeste que recuperaram áreas em estado avançado de degradação produzindo hortaliças e frutas, das Comunidade que Sustentam a Agricultura (CSA) Gaspar Martins, Aldeia do Altiplano, entre outras,  que aproximam os agricultores dos consumidores, recebendo estes uma cesta semanal de alimentos orgânicos mediante o pagamento de uma cota mensal.

Em Barra do Turvo (SP), a Cooperafloresta produz frutas e hortaliças de alta qualidade seguindo o método da Agricultura Sintrópica. No Sul o MST se tornou o maior produtor de arroz agroecológico da América Latina. E vários outros exemplos de Norte a Sul podem mostrar a grande transição agroecológica que ocorre hoje no Brasil e no Mundo.

A agricultura do Século XXI deve levar em conta uma ciência da precaução,   na qual pesquisas em inovações tecnocientíficas sejam precedidas de estudos de riscos sociais e ambientais de longo prazo, rigorosa e sistematicamente testados, como defende o pesquisador Rubens Nodari, da Embrapa8.

Concluímos propondo uma produção de alimentos baseada na Agroecologia, no fortalecimento, da Agricultura Familiar, na soberania alimentar e no total direito à informação sobre os alimentos os quais consumimos. Conforme corrobora o estudo “Agricultura Orgânica no Século XXI”, de John Reganold, a agricultura orgânica é capaz de alimentar toda a população mundial9.

  1. História das Agriculturas no Mundo – do Neolítico à crise contemporânea P. 593 L ROUDART, M MAZOTER – 2010 – São Paulo, UNESP.
  2. Ministério do Meio Ambiente, P. 42 em “Em busca de um novo paradigma alimentar: o caso do Circuito Carioca de Feiras Orgânicas”.
  3. Em busca de um novo paradigma alimentar: o caso do Circuito Carioca de Feiras Orgânicas.
  4. A reconstrução ecológica da agriculturaCarlos Armênio Khatounian
  5. http://www.mst.org.br/2016/01/26/fazendeiros-despejam-agrotoxicos-sobre-area-indigena-em-ms.html.
  6. https://www.abrasco.org.br/site/outras-noticias/movimentos-sociais/aumenta-a-quantidade-de-agrotoxicos-consumido-por-cada-brasileiro-73-litros/10304/
  7. https://www.brasildefato.com.br//2018/04/27/vandana-shiva-a-comida-e-o-maior-problema-de-saude-que-ha-no-mundo/
  8. Transgênicos: O fim do Gênesis. P. 39 e 51 SEBASTIÃO PINHEIRO, S. POA: Fundação Juquira Candirú. 1999
  9. CIÊNCIA PRECAUCIONÁRIA COMO ALTERNATIVA AO REDUCIONISMO CIENTÍFICO APLICADO À BIOLOGIA MOLECULAR RUBENS ONOFRE NODARI. Transgênicos para quem? Transgênicos para quem?: agricultura ciência sociedade. 2011.

http://aspta.org.br/wp-content/uploads/2011/06/Transgenicos_para_quem.pdf

  1. Organic agriculture in the Twenty-first century. JP REGANOLD, JM Wacht er  Nature Plants, 2016. https://www.nature.com/articles/nplants2015221

 

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