1)O colapso das experiências de governos nacionalistas e centroesquerdistas abriu uma nova transição política na América Latina, em um marco mais agudo da crise mundial. A expectativa de um reanimamento do comércio e a produção mundial, que propunham os arquitetos e porta-vozes destes destaques direitistas, não se confirmaram em absoluto. As explosões da bolsa nova-iorquina (e do conjunto do planeta) de fevereiro último, a desvalorização internacional do dólar e a reversão do fluxo de fundos que tinha incentivado o ‘carry trade’, têm iniciado um novo período de explosões financeiras.

A redução de impostos aos capitalistas, por parte dos EUA e a repatriação de capitais do exterior, etc.) estão produzindo uma crise de iliquidez. Nas últimas semanas, o financiamento relativamente barato da América Latina “escasseou”, não só para Maduro, mas também para os Macri. É um caldo para crises cambiais e tendências desvalorizadors das moedas nacionais.

2) Este agravamento das crises econômicas está levando a crises políticas crescentes, como a destituição no Peru do direitista Kuczinsky, já incapaz de governar por uma paralisia política. Na Argentina, a pretensão de aumentar o ritmo do ajuste tropeçou com uma grande reação popular, coroada nas jornadas de 14 e 18 de dezembro, o que obrigou ao governo a ratificar o “gradualismo” do “ajuste”, para não cair na “ingovernabilidade”.

No Brasil, os atentados a tiros contra Lula e suas caravanas eleitorais; a militarização do Rio de Janeiro; o assassinato de ativistas políticos (Marielle Franco, etc.), evidenciam o aumento das tendências golpistas e as ameaças de um adiamento das eleições presidenciais de outubro próximo. Lula ficou “reservado” como saída de emergência frente a uma eventual explosão de uma situação pré ou revolucionária aberta, como último recurso político de contenção e desvio das massas.

O chavismo, por sua vez, encontra-se em um impasse catastrófico. O nacionalismo rentista foi liquidado de forma definitiva pela bancarrota capitalista. A tentativa de obter o socorro da China e da Rússia significa avançar na privatização energética. O imperialismo, entretanto, ameaça com um embargo a Venezuela, o que iria de encontro a um golpe, ou uma intervenção militar estrangeira.

Os golpes “parlamentares” no Brasil, Paraguai, Honduras e agora no Peru, não foram um trâmite constitucional, mas uma saída de força, apoiada abertamente pelas forças armadas destes países e com alto consenso da burguesía dominante. Denunciamos as operações do governo Macri e sua Ministra de Segurança, Patricia Bullrich, para instalar uma “task forcei” (força-tarefa) do Departamento de Estado Americano ianqui em Missões (Argentina) para operar sobre a tríplice fronteira da Argentina, Paraguai e Brasil. Sob a desculpa da luta contra o terrorismo e o narcotráfico, o imperialismo ianqui reforça seu papel de gendarme na América Latina e de colaboração com os governos de direita da região em matéria de espionagem e repressão interna. Denunciamos os acordos entre o governo de Macri com o de Bachelet primeiro, e Piñera agora (Chile) para golpear contra as comunidades indígenas do sul do continente (mapuches) para tomar suas terras históricas e melhor entregar à colonização e exploração de monopólios e financistas imperialistas. Todos os governos latinoamericanos (populistas ou de direita) reforçaram sua legislação repressiva, a partir de leis “antiterroristas”.

Um eventual triunfo de Petro na Colômbia, ou de Lopez Obrador nas próximas eleições do México, apesar de sua crescente direitização, aumentaria o quadro de instabilidade latinoamericana.

3) As medidas de ajuste deram origem a crescentes e combativas mobilizações operárias e populares. O governo Temer sofreu uma greve geral, uma das maiores em décadas, no ano passado. Na Argentina, as jornadas de greve e manifestações políticas combativas de massas do dia 14 e 18 de dezembro contra a reforma da previdência anti-operária se deram contra o acordo colaboracionista da maioria da burocracia sindical da CGT e das CTA’s. Em Honduras estão acontecendo massivas mobilizações populares contra a fraude. Na Bolívia, também, contra a reforma reacionária do Código Penal que tentou impor Evo Morales, o qual tenta forçar a legalização de sua candidatura eleitoral para ser reeleito, manifestações pluriclassistas conseguiram fazê-lo retroceder.

A experiência na América Latina voltou a mostrar os limites insuperáveis do nacionalismo de conteúdo burguês na época de declínio capitalista. Os governos de direita que estão emergindo na America Latina governam, precisamente com o apoio de grande parte da oposição nacionalista ou centroesquerdista e de grande parte da burocracia sindical.

Assistimos a uma tensão crescente entre os esforços dos trabalhadores por enfrentar a ofensiva capitalista e a camisa-de-força das direções que conduzem os sindicatos e as organizações populares.

A proposta de pôr o proletariado como retaguarda de uma de colaboração de classes, em nome de uma oposição a Macri, é completamente reacionário, porque compartilha, com o governo, o objetivo de frear as lutas em nome de uma disputa. Por ora é inviável, e portanto distracionista, já que o peronismo co- governa com o macrismo e a burocracia dos sindicatos. O mesmo vale para o Brasil, onde se criou uma frente política PT- Psol-PC do B-PDT, de conteúdo burguês, para uma aliança em um segundo turno eleitoral.

A Conferência Latinoamericana realizada em julho de 2016 em Montevideo, impulsionada pelo PO (Argentina) e o PT (Uruguai), prognosticou a colaboração entre “populistas” e “neoliberales” e propôs a necessidade de lutar para que “a esquerda se converta em uma alternativa política, desta vez já não sob as formas democratizantes, como na década e meia passada, mas sim operárias e socialistas”. Para isso era necessário uma firme delimitação político- programática do nacionalismo de conteúdo burgués, a intervenção independente impulsionando e pondo-se à frente das lutas operárias e populares e a construção de Partidos operários revolucionários.

Os programas movimentistas propõem sua oposição político-prática à formação de partidos operários independentes e sua integração a frentes de colaboração de classes. O esforço mais importante neste sentido tem feito o PSOL do Brasil, de franco corte eleitoralista. A esquerda trotskista que participa plenamente (MST, IS, ruptura do PSTU, PTS, etc.), disfarça-o com uma pretendida “independência” dentro de um partido ‘amplo’ de tendências, nas quais lutaria por gerar uma direção revolucionária e construir um partido militante. Hoje, o PSOL não é nenhum polo de organização das lutas das massas. O aparelho de um partido que se reivindica, no entanto, movimentista, tem proclamado como candidato a Guilherme Boulos, um estranho ao partido, que representa os interesses do lulismo e sua política.

A tendência à agudização da luta de classes na América Latina (e no mundo) propõe com mais urgência que nunca a necessidade de impulsionar a luta pela construção de partidos revolucionários de combate, com a estratégia da luta pelo governo operário e camponês.

Em 14 de abril reúne-se em Lima o Congresso das Américas, com Trump e os presidentes de direita da América Latina (e a eventual proscrição de Maduro). Irão procurar referendar o curso do ajuste para descarregar a crise capitalista em marcha sobre as massas trabalhadoras do continente, reforçar a colaboração repressiva entre os governos latinoamericanos e o imperialismo ianqui, e ir preparando as condições políticas para o bloqueio econômico contra a Venezuela e uma eventual intervenção estrangeira.

O nacionalismo burgués está também discutindo a realização de uma conferência do “progresismo latinoamericano”. Lula, Roussefd, Cristina Kirchner, Correa, Bachelet, Lugo, Morales e até Mujica procuram criar uma espécie de reedição do Foro de São Paulo, que serviu de usina política e propaganda para que estes partidos chegassem ao poder, no marco de uma política de integração plena com o estado burguês.

Visto este panorama de conjunto, encontra-se à ordem do dia a luta por construir alternativas operárias e socialistas, independentes dos movimentos nacionalistas e frentepopulistas burgueses.

Neste contexto seguiremos impulsionando Conferências Latinoamericanas abertas para discutir ações comuns das organizações lutadoras e combativas, e para produzir uma estratégia política que conduza ao proletariado ao poder, junto ao campesinato, pela Unidade Socialista da América Latina.

Partido Obrero, Argentina. 

Anúncios