30571155_10216297438213675_1707916489176455897_nNesse momento de crise, em que todos da esquerda estão exigindo autocríticas alheias, acho justo fazer a minha. Quem me conhece sabe que defendi, ao longo dos últimos anos, a tese de que não havia um Golpe no Brasil. Inclusive esse foi um dos motivos do meu afastamento do PSOL, já que discordava da maioria do partido sobre o tema, me aproximando à visão abstencionista de organizações como a CST-PSOL e o PSTU. Nos últimos meses, mudei de ideia, e aqui vou explicar as razões disso.

Alguns raciocínios me faziam acreditar que não havia Golpe:

a) Não acho que Lula seja inocente, mesmo sendo questionável a apresentação de provas ao processo do Triplex. Nem que Dilma ou o PT sejam inocentes em seus governos. Portanto, não queria compartilhar dessa bravata que virou palavra de ordem.

b) Porque era um processo de impeachment gestado pelo Congresso e que, portanto, não trazia consigo mudanças sérias de organização do regime.

c) Porque a classe trabalhadora, em sua maioria, não tomou lados no processo. Houve mobilização apenas de uma parcela pequena e conservadora da classe trabalhadora e da pequeno burguesia a favor do impeachment, e de militantes sindicais e movimentos sociais contra o impeachment.

d) Porque acreditava que defender a existência de um Golpe era fazer seguidismo à política do PT e de Lula. E pelo uso político do PT do processo para sua reorganização e aproximação de setores antes críticos à sua política.

O que eu penso agora desses pontos?

a) Nunca colocaria minha mão no fogo para defender qualquer inocência de Lula ou do PT. Além de discordar politicamente dos governos de Lula e Dilma, discordo também dos métodos, que considero corruptos. O PT atuou para que o Estado, como sempre ocorreu na história brasileira, fosse financiador da burguesia com o dinheiro dos trabalhadores. E fez isso como todos os outros gestores do regime burguês fizeram, com favores, benesses e propinas. Mas, como marxista, é necessário analisar a questão em sua essência, para além da aparência. Entender as diferentes tonalidades de cinza do processo e fugir da lógica formal.

A grande questão que me vem à cabeça é: houve um salto de qualidade no regime e no sistema, ou seguimos na mesma situação de quando Dilma estava em seu primeiro mandato, no final de 2012? Qualquer análise séria, capaz de deixar as paixões e as mágoas de lado, tem que, no mínimo, considerar que houve, sim, mudança de qualidade no regime capitalista brasileiro. Que não são fatos separados e isolados as Jornadas de Junho de 2013 (a comprovação prática da incapacidade de conciliação dos governos petistas, o fim do consenso social), o Golpe contra Dilma, a tentativa desenfreada de privatizações, o ataque histórico às leis trabalhistas, a tentativa de destruir a Previdência pública, a intervenção militar no Rio de Janeiro, as ameaças golpistas de generais e a prisão de Lula (enquanto todos os outros corruptos estão soltos e a burguesia se vê ameaçada a regredir em sua política de ajuste direto por conta da popularidade do ex-presidente nacionalista burguês).

Vou além. Todo o processo pelo qual passa o Brasil nos últimos anos não pode ser analisado sem entender seu lugar na conjuntura internacional, de crise do capitalismo em uma era de guerras imperialistas. Guerras fiscais, comerciais e militares. Na tentativa do imperialismo dos EUA de “recolonizar” os ex-territórios comunistas, em especial a ex-URSS e a China, nem que seja a força, por ver nessa tática a única saída viável para a manutenção do capitalismo. E percebendo que a América Latina também têm seu papel nessa virada global de regime: readequar-se ao sistema capitalista, realizar uma reestruturação produtiva que ataque ferozmente os direitos dos trabalhadores. Ou seja, que os governos latino-americanos devem aplicar um plano de guerra contra os trabalhadores para que a volta do Brasil ao status de colônia consiga financiar melhor o imperialismo dos EUA. A condenação de Lula, em minha opinião, é parte desse processo. Moro atua, direta ou indiretamente, a favor do intervencionismo dos EUA na economia e na política brasileira. Por isso, negar seu caráter reacionário sem defender o PT não é uma escolha, é um dever de qualquer socialista. A conjuntura não é o que acreditamos (que Lula errou muito e deve pagar por isso), mas que a direita não quer sequer que o brasileiro tenha direito à conciliação de classes.

b) Aprendi com Jorge Altamira que não pode haver apenas um golpe parlamentar. Não é assim que funcionam os golpes. Quando há uma disputa entre dois poderes: o executivo (Dilma) e o legislativo (Congresso querendo aprovar o impeachment), por mais que haja apoio do judiciário não pode haver movimentação política a ponto de derrubar a presidente sem que tenha havido a mínima concordância do Exército.

Uma comprovação disso é o crescimento do poder dos militares no regime desde o Golpe. Não só houve a intervenção militar no Rio de Janeiro (vejam, apoiada por parlamentares do PT), como na última semana tivemos a infelicidade de ler opiniões golpistas, de defesa de derramamento de sangues, por parte de militares da reserva e da ativa. Ressalto que o comandante da Aeronáutica criticou as incitações golpistas. O Golpe contra Dilma não foi parlamentar. Foi um Golpe, sem tanques na rua, mas com generais participando ativamente do processo. A presença militar se expressa também nos acordos entre Temer e Trump para criar bases militares dos EUA na Amazônia.

c) A classe trabalhadora segue sem participar ativamente do processo, tendo em especial a prisão de Lula movimentado apenas a vanguarda ampliada da esquerda brasileira, de um lado, e cada vez menos conservadores verde-amarelos, de outro. Chama a atenção o fato de que Lula estava refugiado no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e que nenhum trabalhador parou nenhuma máquina em sua defesa. O PT, e seus braços CUT e UNE, são responsáveis políticos pela ausência de mobilização da classe trabalhadora, governaram 13 anos para conciliar e evitar manifestações de rua e agora essa política cobra seu preço. Mas simplesmente apontar que o PT errou não significa nada. Não é porque o PT traiu a classe trabalhadora e cavou sua própria cova que temos que apoiar uma operação judicial bancada pelo imperialismo, essa é uma análise rasa. Temos que ter mais responsabilidade histórica, e mais princípios, do que isso. A organização na qual milito, a Tribuna Classista, defende a necessidade de organização de uma Greve Geral para mostrar a força da classe trabalhadora no combate ao Golpe e ao programa de guerra contra os trabalhadores que o imperialismo e a burguesia tentam impor.

d) Esse é o tema mais difícil. Acho isso porque realmente houve uma movimentação política considerável de parte da esquerda em direção ao petismo, com diferentes matizes. E é justamente essa crítica que dá alguma razão aos socialistas que seguem se equivocando ao se abster nessa situação, negando o Golpe e o giro de regime. Uma boa parte da esquerda democratizante, a mesma que participa de governos de conciliação de classes em Portugal e ainda não realizou um balanço sobre o que sua política representou para a Grécia com Syriza, aderiu à tese da Frente Popular com o PT e seus aliados. A mesma política é apresentada, por exemplo, pelos nacionalistas burgueses argentinos com a tática da “Frente Anti Macrista”. Para justificar essa política, falam da necessidade de unidade para a luta contra o fascismo, mas nem nesse ponto conseguem ir além dos simples discursos eleitoreiros, tentando se posicionar na ala mais esquerda do regime. Não propõem, por exemplo, a organização de brigadas operárias para combater o fascismo que tanto adoram supervalorizar.

Essa Frente, entretanto, não se expressará nas eleições, ao menos não no primeiro turno. Tamanha é a necessidade de crescimento no Parlamento do PSOL que o partido não pode se dar ao luxo de não apresentar um candidato a presidente no primeiro turno. Mas as linhas da Frente Popular já estão traçadas, e bem expressas no manifesto assinado pelas fundações de PT, PSOL, PCdoB e PDT, uma versão atualizada do programa nacionalista burguês de conciliação de classes. No discurso, seguem dizendo querer superar o petismo e criar um novo “bloco histórico”. Será possível liderar a “superação” do petismo com a benção de Lula?

Essa leitura acima é compartilhada pela esquerda abstencionista. Houve um giro. Houve uma vitória política do petismo no âmbito da esquerda. Um impressionismo com a situação levou organizações centristas a pender para a conciliação de classes como “mal menor”. Entre elas, a organização da qual fiz parte no PSOL, a Insurgência. Nos últimos dias isso se expressou, até, com a exaltação da figura de Lula sem o mínimo de senso crítico. Mas discordo que a melhor posição frente a essa análise é dizer que as coisas não estão mudando (ou até que estão melhorando com a prisão de Lula), e se limitar a criticar (com razão) as políticas petistas e lulistas que trouxeram o Brasil até aqui.

É possível criticar toda a política de conciliação de classes sem aderir à política do imperialismo no Brasil. A tarefa histórica da esquerda revolucionária nesse momento é se preparar para a era de guerras e defender sempre a estratégia revolucionária. Para isso não podemos compactuar com ataques e golpismos, mesmo que contra aqueles que odiamos por sua política. Como disse o companheiro do EEK grego Savas Matsas: “se a revolução não consegue deter a guerra, a guerra produzirá a revolução. Assim, de um modo ou de outro, devemos nos preparar para a revolução. Essa não é uma tarefa nacional, é uma tarefa internacional”. Vamos à luta.

Por Mathias Rodrigues, 08/04/2018.

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