Por Mathias Rodrigues, 05/03/2018

Uma das decisões mais acertadas que tomei no ano passado foi sair do PSOL. Demorei muito tempo para compreender o que me incomodava no partido em que comecei a militar e a me formar politicamente. A partir de junho de 2013 e, especialmente, do processo de Golpe, o partido entrou em transformação. A motivação da transformação era justa: responder, com novas formas e novas bandeiras, às mudanças de conjuntura. Afinal, primeiro centenas de milhares haviam saído às ruas exigindo direitos, mas rechaçando as organizações partidárias. E, depois, houve uma polarização política sem precedentes na história recente do país. Mas de boas intenções o inferno está cheio, e a prática demonstra que a transformação do PSOL ruma à adaptação à ordem.

Às Jornadas de Junho, o PSOL respondeu com um autonomismo meia-boca. Como os partidos de esquerda eram rejeitados pela vanguarda da juventude que se mobilizava, era necessário, pelo menos no discurso, demonstrar o contrário disso. Abdicar do debate de temas clássicos do marxismo, porque “os tempos eram outros”. Mas, na prática, manter as mesmas relações burocráticas de poder dentro do partido, sem deixar de fraudar plenárias e congressos para garantir uma maioria política na direção do partido, por exemplo.

Ao Golpe, o PSOL respondeu com uma leitura da realidade impressionada e medrosa. O pacto social de conciliação de classes dos governos petistas, antes criticado (de maneira envergonhada) até pelos reformistas do partido, passou a ser defendido até por parte dos revolucionários. Temendo as consequências da virada da situação política brasileira, o que não ocorria dessa forma, regressiva, há décadas, o PSOL resolveu se abraçar de vez ao regime e o Estado, temendo um regime militar, ou usando essa possibilidade como desculpa para sua transformação. Não só: temendo uma nova onda de crescimento do petismo, que soube muito bem se martirizar após o Golpe para se reconstruir (e cujo crescimento poderia ser um entrave para o objetivo central do PSOL no momento: eleger parlamentares e, quem sabe, Freixo prefeito do Rio), resolveu mudar de patamar sua relação com os setores ex-governistas.

À sua insuficiência de organização de berço (de um partido fundado por rupturas parlamentares e que agregou apenas parte da juventude pequeno-burguesa radicalizada e setores do funcionalismo público), enquanto instrumento de mobilização e politização da classe trabalhadora, o PSOL respondeu com uma política que muito bem serve para inflar o ego de seus militantes: a aproximação com o MTST. Corretamente o PSOL percebeu que o MTST é uma das maiores organizações de vanguarda da classe trabalhadora com grande capacidade de mobilização de setores mais explorados da classe. Incorretamente, o PSOL resolveu substituir a falta de trabalho de base por apenas destacar militantes para apoiar ações do MTST e vestir a camisa do movimento.

Da correta unidade de ação com o lulo-petismo para barrar ataques aos direitos dos trabalhadores, das mulheres, dos LGBTs, etc, o PSOL passou a buscar unidade programática com o PT. Essa transformação do PSOL pode ser resumida na consolidação de uma direção reformista (Unidade Socialista), com apoio de “conselheiros revolucionários” (Insurgência), que quer localizar o PSOL como a figura mais à esquerda e progressista na democracia brasileira.

É uma política que de nova não tem nada: há mais de um século setores da esquerda, no mundo todo, em momentos difíceis da conjuntura, voltam-se a defender o regime burguês e sua democracia. E não é novo também o resultado dessa política: a absorção desses setores pelo Estado burguês e pelo capitalismo. Receiam perder espaço ao apresentar a saída socialista como única alternativa à barbárie em que os trabalhadores do mundo vivem, justamente no momento da conjuntura internacional em que, num cenário de polarização social crescente, as instituições do regime podem desmoronar e abrir brechas revolucionárias. Com medo de perder direitos democráticos hoje, o PSOL abre mão de preparar caminho para transformações radicais nos próximos anos, pois se relocaliza ao lado do PT e não da revolta anti-sistêmica.

Ontem, no lançamento oficial da candidatura de Guilherme Boulos e Sônia Guajajara à presidência, a saudação de Lula nada é mais do que mais uma peça nesse processo de transformação. Peça extremamente simbólica, em especial porque parece nem sequer ter revirado o estômago dos “mais radicais” presentes no evento.

Aos militantes socialistas classistas dentro do PSOL, que são vários, sugiro que sigam o mesmo caminho que eu: abandonem essa experiência perdida que é o PSOL. Seguir disputando o partido contra os reformistas, além de ser um grande desperdício internista de esforço militante, pode inclusive ajudar o crescimento das políticas da maioria do partido. Tentar eleger deputados pelo PSOL tendo Boulos como candidato (aquele que não vai ouvir nenhuma crítica de Lula, como o próprio ex-presidente disse) é referenciar essa estratégia política fadada ao fracasso.

O medo das derrotas pode ser grande e a saída radical pode estar distante no horizonte, mas não é apostando numa alternativa que não acredita na construção de poder dos trabalhadores de forma independente ao Estado e aos patrões que vamos resolver quaisquer dos problemas de fundo da sociedade brasileira.

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